# Caixões personalizados em Gana contam histórias de quem morreu

> Os caixões personalizados de Gana, produzidos pelos artesãos do povo Ga em Acra, transformam o luto em homenagem visual. Cada peça reproduz a profissão ou paixão do falecido, como peixes para pescadores e canetas para professores. A tradição une memória, arte e identidade cultural, tornando o funeral um ato de celebração da vida vivida.

*Portal Notícias MG · Comunidade · 07 de setembro de 2026 · Inácio Bicalho*

Na região de Acra, artesãos do povo Ga criam caixões que reproduzem a vida do falecido: pescadores viram peixes, professores, canetas. Uma tradição que une luto, arte e memória.

Em Gana, caixões personalizados contam a história de quem morreu. O músico Frederick Teiko Ofori, que passou a vida com uma guitarra nas mãos, foi enterrado em um caixão em forma de enorme guitarra após morrer em um acidente de trânsito. A peça chamou a atenção no funeral, realizado em Adjen Kotoku Amoama, nos arredores de Acra.

A tradição é comum entre as comunidades do povo Ga, na capital ganesa. Pescadores são enterrados em peixes ou canoas; agricultores, em vagens de cacau; motoristas, em carros; e religiosos, em Bíblias. Ofori deixou a esposa e um bebê nascido uma semana antes do funeral. A guitarra, porém, seguiu como parte de sua identidade.

O caixão foi feito por Daniel Oblie Mensah, de 54 anos, conhecido como "Hello". Veterano fabricante, ele transforma profissões e paixões em última morada há mais de três décadas. "Cada vez que alguém me encomenda um caixão relacionado à profissão da pessoa que morreu, fico entusiasmado", disse à AFP. "Isso me ajuda a homenagear de verdade a pessoa e sua família."

A tradição moderna surgiu entre artesãos ga em meados do século 20, inspirada nos palanquins dos chefes locais. Hoje, as peças ocupam espaço na arte contemporânea, embora desapareçam sob a terra. Algumas vão a museus, como o caixão-guitarra do artista Paa Joe, no Met de Nova York.

Samuel Commey Tetteh, nascido em 1943, deu aulas em Paanor, em Ga Sul, por mais de meio século. Conhecido como "Teacher", foi enterrado em um caixão em forma de caneta, também obra de Mensah, que levou duas semanas para ficar pronto. Em oficinas de Acra, clientes chegam com fotos ou descrições; os artesãos deixam a imaginação correr.

Lawrence Okoe Anang, de 26 anos, administra a oficina com o irmão. Ele lembra de um caixão-crocodilo, feito para um sacerdote do rio Volta, quando ainda aprendia o ofício, que começou a preparar aos 10 anos. Os caixões custam cerca de 10 mil cedis ganeses (R$ 4.900). Peças para exposição saem mais caras, com materiais duráveis para décadas em museus.

O setor depende de habilidades passadas de geração em geração, mas mudou: ferramentas modernas aceleraram a produção e encomendas de museus estrangeiros expandiram o ofício. Anang se diz carpinteiro, fabricante e artista ao mesmo tempo. O interior também é Gana: a morte, ali, vira memória esculpida em madeira, e a comunidade espera que a arte continue viva nas próximas gerações.

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