Trabalho noturno no campo dribla o calor extremo
Em Moka, no Japão, as galinhas de uma fazenda fazem suas refeições depois da meia-noite. Elas perdem o apetite quando as temperaturas chegam a 35°C durante o dia. Para reduzir o estresse, o fazendeiro mudou os horários de alimentação depois de perder 500 animais por estresse térmico durante um verão intenso, em 2020.
A mesma lógica se repete em outros pontos do globo. Na cidade japonesa de Nikki, trabalhadores de outra fazenda colhem flores à noite para evitar o estresse térmico. Em El Bedorc, perto de Barcelona, na Espanha, um vinhedo colhe uvas às 3 da manhã, antes que as temperaturas diurnas ultrapassem os 40°C.
O que mudou
A alteração de horário deixa de ser escolha individual e vira resposta a um cenário climático. Países da Ásia à Europa vêm enfrentando ondas de calor severas, e o turno da noite aparece como saída prática para manter a produção sem expor trabalhadores e animais ao pico de temperatura.
No Japão, o fator demográfico pesa. Cerca de 70% dos agricultores têm mais de 65 anos, o que os torna mais vulneráveis ao calor. A faixa etária transforma a exposição térmica em risco de saúde, não apenas em desconforto.
Riscos do turno da noite
Trabalhar à noite traz seus próprios riscos, como baixa visibilidade. A adaptação resolve o problema do calor diurno, mas cria outro: a segurança de quem opera máquinas e colhe em ambiente escuro.
O caso de Moka, com a perda de 500 animais em 2020, mostra que a decisão do fazendeiro veio depois do prejuízo, não antes. A mudança de horário funcionou como resposta a um verão que já havia cobrado seu custo.
A discussão de política pública que emerge daí é como conciliar produtividade agrícola, proteção de trabalhadores idosos e segurança no turno noturno, sem transformar a adaptação climática em novo fator de risco ocupacional.