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Década de tensões: rota até crise atual do STF

A crise institucional que envolve o STF (Supremo Tribunal Federal) não é recente. Segundo análise do cientista político Rafael Cortez, ela tem raízes que remontam a 2014, quando a Operação Lava Jato emergiu como um divisor de águas na política brasileira, desencadeando tensões que se acumularam ao longo de mais de uma década.

A Lava Jato, iniciada em 2014, representou, nas palavras de Cortez, "uma hecatombe no mundo da política". Diante da magnitude do escândalo, que atingiu setores público e privado, o STF foi convocado a arbitrar os conflitos gerados. "O tempo foi mostrando que a maneira como o Supremo analisou o comportamento do juiz Sérgio Moro se mostrou que o Judiciário, quando foi passar a limpo, passou a limpo com tensões institucionais", afirmou.

Entre 2014 e 2019, eventos de grande impacto se sucederam. O impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), associado aos desdobramentos da Lava Jato e a uma crise crônica de governabilidade, levou Michel Temer ao poder. A partir de 2019, sob o governo de Jair Bolsonaro, o STF passou a ser alvo direto de ataques, e foi criado o inquérito das fake news. Com Legislativo e Executivo em confronto aberto, o Supremo consolidou-se como principal polo de Poder, o que, segundo Cortez, ampliou a atuação individual de seus ministros. "Isso deu um grau de liberdade muito maior, personificado na figura do ministro Alexandre de Moraes", avaliou.

A soltura de Lula em 2021 marcou o fim de um ciclo iniciado com a Lava Jato. Com a reabilitação política, Lula voltou à vida pública e, depois, à presidência. A linha do tempo avança para o final de 2022 e início de 2023, com a tentativa de golpe de Estado e os eventos do 8 de janeiro, e chega a 2025, com o julgamento da trama golpista e a inédita condenação de integrantes do alto escalão das Forças Armadas.

Para Cortez, o fortalecimento progressivo do STF é, paradoxalmente, a raiz do problema atual. "Esse poder acumulado, na figura do ministro A, o ministro B, eles começaram a entrar em choque e agora a gente é espectador desse choque dentro do Supremo", disse. Embora a atuação do Tribunal tenha sido relevante para conter riscos à democracia, as decisões foram tomadas de forma predominantemente individual, gerando distorções institucionais.

O cientista político ressaltou que a discussão sobre uma reforma do STF, antes tratada como tabu, tornou-se inevitável. "O Supremo, nesse sentido, perdeu essa áurea e provavelmente o próximo mandato, independente de quem for eleito, vai precisar ter uma agenda de reforma institucional do Judiciário", concluiu.

Marília Stefani
Repórter de Segurança Pública
De Betim, cobre segurança pública em MG com dado, contexto e cuidado para não alimentar o pânico.
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