Sumba: ilha paradisíaca onde homens e mulheres vivem como escravizados
A duas horas de avião de Bali, a ilha de Sumba mantém um sistema de escravidão hereditária. Homens e mulheres chamados atas trabalham sem salário para nobres marambas, passando a condição de geração em geração. A tradição, ligada à religião marapu, é tolerada pelo governo indonés
Sumba: a ilha paradisíaca onde homens e mulheres vivem como escravizados
A duas horas de avião das praias de Bali, na ilha de Sumba, homens e mulheres vivem como escravizados do nascimento à morte, de geração em geração, devido ao peso da "tradição". Eles trabalham para seus senhores sem receber salário e passam de uns para os outros como herança.
O sistema de castas em Sumba
A sociedade de Sumba está dividida em três castas: os nobres (maramba), o povo comum (kabihu) e os escravizados ou servos (atas). A condição de ata é hereditária e, a menos que o senhor o liberte, "não pode perder sua condição, nem mesmo por meio do casamento", explica Martha Hebi, especialista no assunto.
Kanisius Kanyali Hambarita, de 34 anos, é escravizado por Umbu Ana Rara, três anos mais novo. Sentados em frente à casa do senhor, mascam noz de betel. Ambos vestem camisetas e sarongues, dormem no chão e não têm sinal de celular. "Não me oponho a isso, é assim que as coisas são", diz Umbu Ana Rara.
Tradição marapu e escravidão
A escravidão em Sumba remonta ao século XVI. A Indonésia a aboliu oficialmente em 1860, durante o domínio holandês, mas ela permanece enraizada, especialmente no leste da ilha. A prática está ligada ao marapu, religião local que combina animismo, culto aos ancestrais e o mundo espiritual. "Os marambas obtiveram os atas ao chegarem a Sumba", explica Umbu Remi Deta, sacerdote marapu.
Violência e impunidade
Os escravizados sofrem violência física e sexual. "Segundo a tradição, o senhor tem o direito, entre aspas, de 'usar' sua serva", confirma Marlin Lomi, pastora e presidente do sínodo protestante de Sumba Oriental. Em 2024, uma escravizada de 18 anos, estuprada desde os 13 pelo senhor e o filho dele, denunciou os agressores. Dois anos depois, "a investigação ainda não terminou", afirma Dian Sasmita, da Comissão Indonésia para a Proteção da Infância (KPAI).
O papel do governo
A Constituição de 1945 proíbe a escravidão, e o Código Penal criminaliza a privação de liberdade. Mas o código também reconhece o direito consuetudinário. "O governo não quer impor mudanças abruptas, mas sim acompanhar o desenvolvimento social", disse o ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Yusril Ihza Mahendra, à AFP.
Gidion Mbilijora, ex-chefe do distrito de Waingapu, admite que "mudar a mentalidade dos nobres exigirá um longo processo". Ele próprio tem "dois atas".
Perguntas Frequentes
Quantos escravizados existem em Sumba?
Uma assistente social, que pediu anonimato, estima "cerca de 1.700" no distrito de Sumba Oriental, que tem 350.000 habitantes. Outros estimam que sejam milhares.
A escravidão em Sumba é legal?
Não. A Constituição de 1945 proíbe a escravidão, mas o Estado reconhece formas de direito consuetudinário, o que permite a prática.
Como os escravizados são tratados?
O tratamento depende do senhor. Alguns recebem permissão para ganhar dinheiro como mototaxistas ou cultivar terra própria. Outros sofrem maus-tratos, violência física e sexual.
A condição de escravizado pode ser perdida?
A menos que o senhor o liberte, a condição é vitalícia e hereditária. Nem o casamento a apaga.
O que o governo indonésio faz para acabar com a escravidão?
O governo afirma não querer impor mudanças abruptas. O ministro da Justiça defende acompanhar o desenvolvimento social de cada grupo étnico.