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Distopia americana de Trump vai além do gênero literário

ResumoA distopia americana de Donald Trump transcende o gênero literário ao materializar-se em ações concretas, como agentes mascarados perseguindo imigrantes, cortes em universidades e um clima de medo generalizado. O ensaio de Jamil Chade documenta esses efeitos reais, evidenciando que a ficção distópica se tornou realidade cotidiana nos Estados Unidos.

A distopia promovida por Donald Trump não é ficção: agentes mascarados perseguem imigrantes nas ruas, universidades são alvo de cortes e o medo domina o cotidiano. Um ensaio de Jamil Chade mostra os efeitos reais.

Vânia Drummond
Vânia Drummond Repórter de Cultura Mineira · 27 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Distopia americana de Trump vai além do gênero literário

Quando a distopia americana de Trump vai muito além do gênero literário

A distopia promovida por Donald Trump não é uma metáfora literária. Agentes federais mascarados e fortemente armados perseguem imigrantes latinos nas ruas dos Estados Unidos, abordando trabalhadores com base na aparência, no sotaque ou na suspeita de situação migratória irregular. Práticas características do fascismo agora fazem parte do cotidiano da sociedade americana.

"Estamos vivendo uma distopia", comentou um velho amigo radicado há décadas nos EUA, casado com uma norte-americana e pai de dois filhos. Pesa em sua avaliação o fato de que os imigrantes são perseguidos por agentes que atuam como uma milícia patrocinada pelo presidente.

O livro que mostra o esgarçamento da democracia

Aguardamos a chegada às livrarias de "Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana", do jornalista Jamil Chade, com lançamento previsto para agosto. Com prefácio do cineasta Walter Salles, o livro percorre os lugares onde se espalham o medo, o rancor, a pobreza e a ilusão, de Manhattan à fronteira mexicana, do Madison Square Garden aos abrigos destinados aos deportados.

O resultado é um ensaio jornalístico sobre como as democracias podem sucumbir. A força do livro decorre de sua materialidade: os fatos aconteceram, as pessoas perseguidas têm nome, família, emprego e endereço. Os agentes que as detêm pertencem ao Estado, as ordens partem da Casa Branca e os recursos são aprovados pelo Congresso.

Deportações em números

Segundo levantamento do Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros haviam sido deportados desde a posse de Trump até o fim de 2025. As detenções realizadas pelo Serviço de Imigração e Alfândega, o ICE, chegaram a cerca de 1.200 por dia. Parte expressiva dos detidos não possuía condenação criminal.

Houve também cidadãos norte-americanos presos, separação de famílias, transferências para prisões estrangeiras e tentativas de restringir o direito de defesa. Quatro pessoas foram mortas à frente de todos, duas das quais norte-americanas. A Suprema Corte precisou reafirmar que até os estrangeiros submetidos à Lei dos Inimigos Estrangeiros têm direito a ser notificados e contestar sua expulsão.

O medo no cotidiano

O terror político gerado pelas deportações difunde a insegurança entre milhões. Famílias evitam hospitais, escolas, igrejas e repartições por medo de detenções. Trabalhadores deixam de denunciar abusos. Crianças regressam para casa sem saber se encontrarão os pais. Agentes mascarados podem deter as pessoas sem se identificar claramente e levá-las para lugar desconhecido.

A guerra cultural

Trump não precisa organizar fogueiras em praças públicas como em "Fahrenheit 451", de Ray Bradbury. Mas manda retirar livros de bibliotecas, eliminar referências ao racismo, perseguir programas universitários e condicionar recursos federais à adesão ideológica. Revogou políticas de diversidade, equidade e inclusão e passou a considerar o combate ao racismo uma forma de discriminação contra os brancos.

Uma guerra cultural fomenta a distopia. Trump produz inimigos simbólicos: imigrantes, professores, universidades, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, movimentos negros e jornalistas são transformados em ameaças aos valores tradicionais. A fé também é instrumentalizada. Deus, pátria e governo estariam unidos num mesmo projeto. O dissidente político passa a ser tratado como inimigo da nação, da família e dos cristãos.

O avesso do sonho americano

Jamil Chade demonstra o absurdo dessa operação ao percorrer o delta do Mississippi, região decisiva para a expansão econômica dos EUA e profundamente marcada pela escravidão. Em West Helena, no Arkansas, 35% dos cerca de oito mil habitantes vivem abaixo da linha da pobreza. No Mississippi, o estado mais pobre do país, 45% da população está abaixo da linha de pobreza ou integra os segmentos de baixa renda.

Uma família negra recebe anualmente cerca de US$ 30 mil menos do que uma família branca. Há um desmonte da proteção social. A lei orçamentária aprovada em 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais previstos com saúde ao longo de uma década, e 10 milhões de pessoas a mais ficarão sem seguro-saúde.

Perguntas Frequentes

O que é a distopia americana de Trump?

É a aplicação real de práticas autoritárias, como perseguição a imigrantes por agentes mascarados, censura a livros e universidades, e criação de inimigos simbólicos, com base em decretos e normas administrativas.

Quantas pessoas foram deportadas no governo Trump?

Segundo o Migration Policy Institute, 622 mil estrangeiros foram deportados até o fim de 2025, com cerca de 1.200 detenções diárias pelo ICE.

Quem é Jamil Chade?

Jornalista autor do livro "Tomara que você seja deportado: uma viagem pela distopia americana", com lançamento em agosto e prefácio do cineasta Walter Salles.

Como a guerra cultural do Maga afeta a população?

Ela transforma imigrantes, professores, ambientalistas, pessoas LGBTQIA+, negros e jornalistas em ameaças, gerando medo e inibindo denúncias e protestos.

O que acontece com os imigrantes detidos?

Eles podem ser presos sem condenação criminal, separados de suas famílias e transferidos para prisões estrangeiras, com risco de morte e restrição ao direito de defesa.

Como a política de Trump impacta a saúde?

A lei orçamentária de 2025 reduz em mais de US$ 1 trilhão os gastos federais com saúde em uma década, deixando 10 milhões de pessoas sem seguro-saúde.

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