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Não somos paisagens: idosos e o direito à cidade

Existe uma expressão da violência que não deixa marcas, mas machuca muito. É silenciosa e não aparece nas estatísticas. Trata-se da invisibilidade das pessoas idosas, situação presente no cotidiano de quem está no ônibus, na fila do banco, no caixa do supermercado ou na igreja. A cidade passa por essa maioria como se ela fosse apenas parte da paisagem urbana.

A tese central é direta: as pessoas idosas não estão mortas para a vida e não são paisagens. Paisagem a gente observa; pessoa a gente escuta. Paisagem não reclama; pessoa reivindica. Paisagem não vota; pessoa escolhe os destinos da cidade pelo voto. Por isso, o momento é oportuno para perguntar aos candidatos e às candidatas às eleições de outubro onde estão as pessoas idosas nos seus compromissos políticos.

O que muda com uma cidade que envelhece

Uma cidade que envelhece, como a nossa, precisa de mais do que rampas, bancos e ônibus acessíveis. O texto aponta que é preciso combater o preconceito etário e garantir moradia, mobilidade, segurança, cultura, lazer, saúde, trabalho e participação social. Envelhecer não pode levar ao desaparecimento. Pelo contrário.

A crítica recai sobre a contradição entre celebrar a longevidade nos discursos oficiais e, ao mesmo tempo, retirar das pessoas idosas o direito de decidirem sobre as próprias vidas. Uma pessoa idosa não é apenas alguém que necessariamente precisa de cuidados. É alguém com história, conhecimentos, desejos, afetos, capacidade de escolha e direito de continuar ocupando o espaço público diariamente.

Da tutela ao protagonismo

A proposta é trocar o olhar de coitado pelo olhar de cidadania. A tutela pelo protagonismo. O silêncio pela participação. A velhice não é um problema urbano, mas parte da solução urbana: a experiência de quem viveu décadas pode ajudar a cidade a cometer menos erros, construir melhores relações e enxergar aquilo que a pressa dos mais jovens não consegue perceber.

Paisagens ficam paradas. Pessoas idosas continuam vivendo, trabalhando, amando, errando, aprendendo, votando, criando e desejando uma cidade que seja sua amiga. O texto encerra com uma reflexão: se a cidade teima em não enxergar quem já envelheceu, como pretende acolher quem ainda vai envelhecer? O desafio continua sendo viver melhor, com a pessoa idosa entrando de vez no orçamento público municipal como parte ativa da cidade.

Sérgio Tadeu Mafra
Repórter de Economia Regional
De Uberlândia, cobre economia do Triângulo e agronegócio mineiro com dado na mão e linguagem clara.
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