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Moraes vira cabo eleitoral de Flávio contra Lula

A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) da última terça-feira adiou a decisão sobre a abertura de investigação contra o ministro Alexandre de Moraes. O pedido de vista apresentado por Flávio Dino transferiu o desfecho para depois das eleições, mas não evitou o desgaste da Corte. Para o eleitor, o Supremo fez tudo para impedir que um de seus integrantes fosse investigado. É nesse terreno que Flávio Bolsonaro avança contra Lula a menos de três semanas do pleito.

A suspeita de que o pedido de vista serviu para proteger Moraes é politicamente mais poderosa do que os argumentos processuais apresentados. No Ceará, Flávio afirmou que "ninguém aguenta mais os ministros do Lula no Supremo melando o Brasil" e procurou colar as duas imagens: "Quem está votando em Lula está votando em Alexandre de Moraes". Trata-se de uma simplificação oportunista, mas eleitoralmente eficiente.

O que a sessão do STF expôs

A sessão forneceu à oposição imagens e declarações devastadoras. Gilmar Mendes chamou André Mendonça de "policialesco" e o acusou de "desfaçatez". Mendonça reagiu aos gritos: "A desfaçatez de Vossa Excelência, me respeite!". Diante do confronto, Flávio Dino interrompeu o julgamento: "Se Vossa Excelência vai ficar assistindo a isso, eu não vou. Faço um pedido de vista. O clima é daí para pior e o país assistindo".

O país assistiu ministros votarem em processos nos quais seus próprios interesses estavam em jogo. Moraes pediu a reunião do pedido de investigação contra ele com a representação que apresentou contra Mendonça. Este votou pela separação dos casos. Cármen Lúcia pediu desculpas aos brasileiros e declarou-se envergonhada porque o país, a poucos dias das eleições, está voltado para as disputas internas do Supremo.

A presença destacada de Dino, ex-ministro da Justiça e indicado por Lula, e de Cristiano Zanin, antigo advogado do presidente, no grupo favorável à estratégia que beneficiou Moraes alimenta a narrativa bolsonarista. A hesitação do Supremo torna insuficiente o esforço de Lula para se descolar de Moraes. O presidente reconheceu que "a imagem não está boa", chamou o banqueiro Daniel Vorcaro de "mafioso" e afirmou que todo aquele que cometer delito deve pagar, "isso vale para mim, para Alexandre de Moraes, para Fachin".

Segurança pública entra na campanha

Flávio também tenta fazer da segurança pública outro eixo de sua campanha. Promete "libertar o Ceará" das facções criminosas e acusa os governos petistas de entregarem o estado ao crime organizado. A ofensiva coincide com o relatório de Donald Trump, segundo o qual o governo brasileiro "falhou" no combate ao Primeiro Comando da Capital e ao Comando Vermelho, classificadas por Washington como organizações terroristas.

A declaração não pode ser examinada isoladamente. Trump elogiou governos ideologicamente alinhados aos Estados Unidos e atacou adversários ou países com os quais mantém disputas. A seletividade política do documento é evidente. Ainda assim, ao exigir que o Brasil adote "medidas agressivas" contra PCC e CV, o presidente norte-americano introduz na campanha brasileira uma questão de soberania.

A atuação de Eduardo Bolsonaro amplia o risco. Autoexilado nos Estados Unidos, ele se reuniu com representantes do Departamento de Estado para apresentar um briefing sobre a crise do Supremo e anunciou que trabalha por uma nova rodada de sanções contra ministros brasileiros. A estratégia contém uma contradição: Flávio é investigado por suspeitas relacionadas ao financiamento do filme "Dark Horse" sobre a trajetória de Jair Bolsonaro, com recursos que teriam sido solicitados a Vorcaro. Inicialmente negou conhecer o banqueiro; depois admitiu o contato e o pedido de financiamento, embora negue irregularidades.

Marília Stefani
Repórter de Segurança Pública
De Betim, cobre segurança pública em MG com dado, contexto e cuidado para não alimentar o pânico.
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