Minha terra sem palmeiras: arborização urbana em Juiz de Fora
Sob o trocadilho com a Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, o artigo discute por que o centro de Juiz de Fora segue cinza e sem árvores, mesmo após receber da FAO o título de cidade árvore do mundo em 2024.
O trocadilho do título com a Canção do Exílio, poema oitocentista de Gonçalves Dias, serve de mote para chamar atenção a uma questão cada vez mais inadiável: os benefícios da arborização urbana. O artigo original foi publicado na Tribuna de Minas.
Em Juiz de Fora, a primavera no hemisfério austral se aproxima e traz a instabilidade atmosférica típica da estação, alternando dias úmidos e secos, frios e quentes. A cada ano, porém, cresce a severidade dos eventos meteorológicos, sobretudo as ondas de calor.
O que a falta de árvores faz com a cidade
O calor excessivo torna os dias insuportáveis para a população que precisa se deslocar diariamente em busca de sustento e não tem como climatizar a casa. Nas escolas, o incômodo provocado pelas altas temperaturas dispersa a atenção de crianças e adolescentes, mesmo com ventiladores potentes, e compromete o desempenho escolar. O fenômeno é chamado de ansiedade climática.
Uma volta rápida pelas ruas do centro de Juiz de Fora revela poucas árvores, ou exemplares raquíticos sufocados pelo concreto ou por hemiparasitas como a erva de passarinho, que roubam nutrientes das plantas.
As árvores prestam serviços ecológicos imprescindíveis aos centros urbanos:
- Formam ilhas de frescor com sua sombra, limitando a radiação solar direta no solo, que irradia calor e aumenta o mal-estar em dias quentes.
- Reduzem o ruído de veículos, equipamentos de som, obras, buzinas e sirenes em até 30%, aliviando a poluição sonora geradora de estresse.
- Permitem a infiltração das águas pluviais e contribuem para reduzir enchentes.
- Fornecem alimento e abrigo para aves, insetos e pequenos mamíferos.
- Têm efeito estético e psicológico que faz as pessoas se sentirem bem durante e após a contemplação.
Há quem veja as árvores como estorvo, seja pela veiculação midiática da queda de um exemplar que danifica automóvel ou imóvel, seja pelas folhas e frutos associados a lixo, seja porque obstruem a visão.
Índice de área verde abaixo do mínimo
A falta de informação sobre a importância da cobertura vegetal urbana e a carência de corpo técnico especializado em meio ambiente em cargos públicos comissionados e estratégicos fizeram Juiz de Fora se tornar uma cidade menos arborizada em sua região central, com índice de área verde (IAV) abaixo do mínimo desejável. É o que aponta, entre outros, um estudo realizado em 2014 e intitulado 'Áreas verdes públicas de Juiz de Fora: uma análise do estado da arte nos dias de hoje', de domínio público. De lá para cá, segundo o autor, nada de novo.
Existem dificuldades no plantio e manutenção de espécies, como ruas e calçadas estreitas, fiação elétrica obsoleta suspensa e construções sem recuo. Ainda assim, há conhecimento científico de vanguarda para auxiliar na escolha, plantio e manutenção das espécies nativas mais indicadas ao meio urbano. Florestas de bolso em espaços ociosos, canteiros e praças cimentadas poderiam cumprir essas funções e melhorar a qualidade ambiental e de vida na cidade. O texto trata de arborização urbana, não de unidades de conservação, parques ou propriedades rurais.
Embora o município tenha recebido o título de cidade árvore do mundo pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) em 2024 por atender a padrões de cuidado com as árvores e as florestas, o coração da urbe permanece despido de vegetação, o que faz saltar aos olhos a paisagem cinza de concreto e asfalto.
Basta dar uma volta rápida pelas ruas do centro, de preferência em dias amenos.
- Carlos Magno Adães de Araújo é mestre em geografia e doutorando em história.