Dívidas na Argentina: 20 milhões endividados e o que isso indica
Mais de 20 milhões de argentinos estão endividados e cerca de 6 milhões estão em mora, segundo números do Banco Central do país e de consultorias locais. A Argentina tem pouco mais de 46 milhões de habitantes, o que significa que um a cada três cidadãos enfrenta problemas para liquidar dívidas com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos ou agiotas, como aponta a consultoria Analytica.
Em 20 de agosto, a Praça de Maio, em Buenos Aires, foi palco da primeira marcha de cidadãos endividados. Eles reivindicaram mecanismos para refinanciar suas dívidas e protestaram contra a decisão de não intervir na crise, que tem marcado o governo do presidente Javier Milei. Funcionários do governo argentino definiram a situação como "uma questão entre entes privados". Milei atribuiu o aumento do número de endividados ao auge da compra de televisores para a Copa do Mundo, e questionou, em entrevista ao jornal La Nación, se alguém havia colocado "uma pistola na cabeça" dos devedores. A BBC News Mundo pediu comentários à Presidência argentina, mas não houve resposta.
O diretor do Centro de Economia Política Argentina (Cepa), Hernán Letcher, considera que o número de 20 milhões não é o dado mais preocupante. "O problema são os seis milhões de pessoas em mora, ou seja, que têm 90 dias de atraso no pagamento da sua dívida", afirma. Segundo Letcher, 55% dos quase seis milhões (cerca de 3,5 milhões de pessoas) detêm dívidas tecnicamente irrecuperáveis. Ele também destaca que cerca de 90% do atraso de pagamento de cartões de crédito são compras de supermercado, basicamente alimentos. Na sua avaliação, o alto número de devedores é consequência da queda da renda dos lares, compensada pelo endividamento. "Aqui, o metrô aumentou 2000%; o trem, 1800%; e os serviços, 850%. Mas os salários subiram 300%", exemplifica.
Casos como o de Eliana Yaynes e Iván Venencio ilustram a situação. Yaynes e o marido pagam quatro empréstimos e ela calculava dever cerca de 10 milhões de pesos (US$ 6.620, cerca de R$ 34,1 mil). Venencio, que dirige entre 10 e 12 horas por dia, afirma que não tenta mais negociar refinanciamento: "Quando você começa a olhar os juros, aquilo se tornou totalmente impagável". A esposa dele perdeu uma gravidez, o sogro morreu e o carro usado para renda adicional pegou fogo, eventos que somaram gastos não planejados. O governo argentino, procurado pela BBC, não comentou as declarações de Milei até a publicação da reportagem.