Houthis assumem controle de cidade estratégica no Iêmen
Os houthis assumiram o controle da cidade portuária de Mocha, no Iêmen, nesta quinta-feira (10). O avanço amplia a influência do grupo sobre o estreito de Bab el-Mandeb, rota marítima por onde passa parte do petróleo mundial.
Os houthis, alinhados ao Irã, assumiram nesta quinta-feira (10) o controle da histórica cidade portuária de Mocha, no Iêmen, segundo quatro fontes militares do governo do país. O grupo ampliou sua influência sobre o estreito de Bab el-Mandeb, uma das principais rotas marítimas do mundo.
O avanço preocupa quem depende do transporte de energia. O estreito é a saída sul do Mar Vermelho, entre o Iêmen, na Península Arábica, e Djibuti e Eritreia, na costa africana. Por ali passa petróleo bruto e combustíveis do Golfo Pérsico rumo ao Mediterrâneo, pelo Canal de Suez ou pelo oleoduto Suez-Mediterrâneo. Também circulam commodities com destino à Ásia, incluindo petróleo russo.
Segundo fontes do governo ouvidas pela Reuters, os houthis também lançaram ataques contra as estratégicas ilhas de Hanish, no Mar Vermelho. Forças governamentais e seus aliados estão se deslocando para o sul, em direção a Dhubab, cidade localizada diretamente no estreito, do outro lado da ilha de Perim. O controle de Dhubab e de Perim é fundamental para dominar a passagem, dizem as fontes.
O que está em jogo no estreito
Bab el-Mandeb, ou "Portão das Lágrimas", recebeu esse nome devido às condições perigosas de navegação. Um bloqueio da passagem isolaria produtores de petróleo do Golfo, como a Arábia Saudita, de suas principais rotas marítimas. Isso ocorre depois que o Irã efetivamente fechou o Estreito de Ormuz, principal corredor de transporte de energia entre a Ásia e a Europa.
Nos últimos dias, houve escalada nos combates entre os aliados da Arábia Saudita no governo internacionalmente reconhecido do Iêmen e os houthis. Uma trégua mediada pela ONU em 2022 interrompeu em grande parte anos de guerra, mas não levou a um acordo duradouro.
Deslocamento e crise humanitária
Centenas de mulheres e crianças deixaram Mocha nesta quinta-feira em direção às províncias de Lahj e Áden, controladas pelo governo apoiado pela Arábia Saudita. Elas buscavam abrigo depois de perder parentes nos combates, segundo dados do governo iemenita. Nas províncias de Taiz e Al-Hodeidah, mais de 20 mil pessoas foram deslocadas pelos confrontos nas últimas duas semanas.
A Arábia Saudita afirmou que os houthis intensificaram os ataques contra o país nos últimos dias, deixando 73 pessoas feridas, incluindo mulheres e crianças, após atingir alvos civis e econômicos no sul. Os houthis afirmaram na quarta-feira (9) que ataques sauditas atingiram as províncias de Jawaf, Marib e Saada, na fronteira com o reino, além de Taiz e Al-Hodeidah. A Arábia Saudita não confirmou os ataques.
Um líder militar aliado às forças do governo do Iêmen afirmou que ordenou a seu grupo, na costa oeste, que estabeleça um centro de comando alternativo em local seguro. As instruções de Tarek Saleh, sobrinho do ex-presidente iemenita Ali Abdullah Saleh, assassinado em 2017, são mais um sinal de que os houthis estão pressionando as Forças de Resistência Nacional a deixar a costa oeste.
O Paquistão transmitiu ao Irã um alerta da Arábia Saudita para que o país contenha seus aliados houthis no Iêmen, segundo fontes sauditas, paquistanesas e iranianas. Um alto funcionário iraniano confirmou que o Paquistão levou a mensagem a Teerã na terça-feira (8). A resposta, segundo ele, foi que "o Irã não controla os houthis". Duas fontes iranianas, no entanto, afirmaram que Teerã orientou os houthis na semana passada a realizar ataques contra a Arábia Saudita, prometendo financiamento e armas adicionais.
Os houthis governam a maior parte do noroeste do Iêmen e começaram a atacar embarcações e a lançar drones e mísseis contra Israel em novembro de 2023, afirmando agir em apoio aos palestinos durante a guerra de Israel em Gaza. Em 2014, o grupo tomou a capital Sanaa, levando o governo internacionalmente reconhecido a se deslocar para o sul, em direção a Áden. A Arábia Saudita liderou uma intervenção militar contra os houthis em 2015.