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Gênero, raça e origem familiar definem mobilidade social, diz estudo

ResumoO Atlas da Mobilidade Social, divulgado em 31 de janeiro, identifica gênero, raça e origem familiar como fatores determinantes da baixa mobilidade social no Brasil. O estudo quantifica como esses condicionantes estruturam desigualdades persistentes, limitando ascensão econômica para grupos específicos. Os dados revelam padrões de reprodução intergeracional de desvantagens, com impacto direto sobre trajetórias de renda e ocupação. A publicação oferece base empírica para políticas públicas focadas em equidade estrutural.

Atlas da Mobilidade Social, divulgado nesta sexta-feira (31), mostra que gênero, raça e origem familiar são os principais condicionantes para a baixa mobilidade social no Brasil. Entenda os números.

Sérgio Tadeu Mafra
Sérgio Tadeu Mafra Repórter de Economia Regional · 31 de julho de 2026 · 5 min de leitura
Gênero, raça e origem familiar definem mobilidade social, diz estudo

Gênero, raça e origem familiar definem mobilidade social, diz estudo

A mobilidade social no Brasil é fortemente condicionada por gênero, raça e origem familiar, segundo o Atlas da Mobilidade Social, divulgado nesta sexta-feira (31). A plataforma pública, desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds) em parceria com o grupo de pesquisa Prospera Lab, mostra que a educação é o fator mais associado à ascensão de renda.

Entre jovens brancos que nasceram em famílias situadas entre os 25% mais pobres da distribuição de renda, 36,3% permanecem nesse mesmo grupo quando adultos. Entre os não brancos, essa probabilidade sobe para 51,6%, indicando que a questão racial é ainda mais determinante para esse grupo.

Gênero altera as chances de ascensão

O gênero também altera significativamente as possibilidades de mobilidade social. Entre os filhos de pais que estavam entre os 25% mais pobres da população, cerca de um terço dos homens (32,9%) permanece nesse mesmo estrato de renda na vida adulta. Entre as mulheres, a proporção chega a 65,1%.

Essa disparidade aparece também no recorte racial: enquanto 69% das mulheres não brancas continuam entre os 25% mais pobres quando adultas, entre as mulheres brancas esse percentual é menor, de 52,9%.

Origem familiar e a persistência do ciclo

O estudo mostra ainda que filhos de pais que estavam entre os 25% mais pobres da população têm 48% de chance de permanecer nesse mesmo grupo quando atingem a idade adulta. As possibilidades de romper esse ciclo são reduzidas: apenas 8,32% conseguem alcançar o grupo dos 25% mais ricos e somente 1,28% chegam ao estrato dos 10% com maior renda do país.

Já a situação para quem nasce em famílias de maior renda é bastante diferente. Jovens cujos pais pertenciam à faixa intermediária da distribuição de renda (entre os 26% e os 75% dos mais ricos) têm 17,5% de probabilidade de alcançar o grupo dos 25% mais ricos na vida adulta. Entre os filhos das famílias que pertenciam aos 25% mais ricos, 56,5% permanecem nesse mesmo estrato quando adultos e 30,8% chegam ao grupo dos 10% mais ricos.

Gerações: hierarquia resiliente

A hierarquia de oportunidades, de acordo com o Atlas, mostra-se resiliente ao longo do tempo. Ao comparar duas gerações, nascidas de 1983 a 1987 e de 1988 a 1990, os dados mostram que, embora tenha havido um pequeno aumento na mobilidade social entre os dois grupos analisados, a possibilidade de ascensão social dos filhos permanece similar à dos pais.

Filhos de pais que pertenciam aos 25% mais pobres da população e nasceram entre 1983 e 1987 tinham 7,9% de probabilidade de ascender aos 25% mais ricos quando adultos. Entre os nascidos de 1988 a 1990, essa probabilidade subiu para 8,8%. O cenário se repete entre os filhos de famílias de renda média: a chance de ascender aos 25% mais ricos passou de 16,6% para 18,6%, uma variação pequena que reforça a persistência da baixa mobilidade social.

Regiões: contrastes entre Norte, Nordeste e Sul

O Atlas analisou as chances de ascensão social de jovens oriundos de famílias de baixa renda nas diferentes regiões do país. As maiores probabilidades de mobilidade concentram-se nas regiões Sul, Sudeste e em partes do Centro-Oeste. Já grande parte do Norte e do Nordeste apresenta as menores taxas de mobilidade, revelando territórios onde a pobreza tende a ser mais persistente entre gerações.

A reprodução das desvantagens sociais, em que filhos de famílias de renda mais baixa têm maior chance de permanecer no mesmo grupo da distribuição, se mostra mais intensa em municípios das regiões Norte e Nordeste.

Os contrastes entre os municípios brasileiros ilustram a magnitude das desigualdades de oportunidades. Em Assis Brasil (AC), 84,4% dos jovens oriundos de famílias que pertenciam aos 25% mais pobres permanecem nesse mesmo grupo de renda quando adultos, um dos piores resultados do país. Já em Ponte Serrada (SC), apenas 2,13% dos jovens permanecem nesse estrato de renda, evidenciando um ambiente muito mais favorável à ascensão socioeconômica.

Educação como dimensão mais associada à ascensão

Entre os indicadores socioeconômicos incorporados ao Atlas, a educação apareceu como a dimensão mais associada à mobilidade social. Municípios com melhores indicadores educacionais, como maior Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e menor distorção idade-série, tendem a apresentar maiores chances de mobilidade ascendente.

"A mobilidade social depende da capacidade de reduzir as desigualdades de origem. O Atlas mostra que políticas educacionais são fundamentais, mas precisam ser acompanhadas de estratégias econômicas capazes de ampliar oportunidades ao longo da vida. Nosso objetivo é oferecer evidências que ajudem gestores públicos a desenhar políticas mais eficazes para promover a ascensão social", destacou o presidente do Imds, Paulo Tafner.

Segundo o Atlas, os números apresentados no mapeamento têm como base os dados e a metodologia desenvolvidos no artigo acadêmico Intergenerational Mobility in the Land of Inequality (Britto et al., 2025). As estimativas de mobilidade intergeracional de renda foram calculadas utilizando métodos contemporâneos de mensuração da mobilidade social e dados administrativos da Receita Federal, dos Ministérios do Trabalho e Emprego e do Desenvolvimento Social, além de pesquisas domiciliares do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O estudo completo pode ser consultado em: https://atlasmobilidadesocial.org.br/

Perguntas Frequentes

O que é o Atlas da Mobilidade Social?

É uma plataforma pública desenvolvida pelo Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (Imds), em parceria com o grupo de pesquisa Prospera Lab, que mapeia as chances de ascensão social no Brasil.

Qual o principal fator associado à ascensão de renda?

A educação apareceu como a dimensão mais associada à mobilidade social, segundo o Atlas.

Como a raça influencia a mobilidade social?

Entre jovens não brancos de famílias entre os 25% mais pobres, 51,6% permanecem nesse grupo na vida adulta, contra 36,3% dos brancos.

Como o gênero afeta as chances de ascensão?

Entre as mulheres de famílias entre os 25% mais pobres, 65,1% permanecem no mesmo estrato, enquanto entre os homens o percentual é de 32,9%.

Em quais regiões a mobilidade é menor?

As menores taxas de mobilidade estão em grande parte do Norte e do Nordeste, com pobreza mais persistente entre gerações.

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