Da febre dos pets ao comércio de carne de cachorros: o contraste que divide a China
A China vive um contraste profundo: enquanto milhões de famílias tratam cães como membros da família, o comércio de carne de cachorros persiste em províncias como Guangxi e Jilin. Um mergulho nos números oficiais e nas histórias reais.
Da febre dos pets ao comércio de carne de cachorros: o contraste que divide a China
A China vive um contraste profundo: enquanto milhões de famílias tratam cães como membros da família, o comércio de carne de cachorros persiste em províncias como Guangxi e Jilin. Por trás dos números oficiais e das mudanças culturais, há histórias reais de famílias que enfrentam escolhas difíceis.
Resposta direta: A China vive um contraste entre a febre dos pets e o comércio de carne de cachorros. Enquanto milhões de famílias adotam cães como membros da família, o consumo de carne canina persiste em províncias como Guangxi e Jilin. O governo chinês não proíbe nacionalmente o comércio, mas cidades como Shenzhen e Zhuhai já o baniram.
O boom dos pets na China urbana
Em Pequim e Xangai, cães de raça como golden retrievers e poodles são comuns em parques e cafés. Dados oficiais da Associação Chinesa da Indústria de Animais de Estimação indicam que o mercado pet chinês movimentou cerca de 249 bilhões de yuans em 2023, um crescimento de 12% em relação ao ano anterior. Para famílias como a de Liu Wei, morador de Shenzhen, o cachorro é "parte da família", ele gasta cerca de 3.000 yuans por mês com alimentação e cuidados veterinários.
Esse fenômeno reflete mudanças sociais profundas: o envelhecimento da população, a urbanização e o aumento da renda disponível. Jovens solteiros e casais sem filhos, conhecidos como "geração dos pets", veem nos animais uma fonte de afeto e companhia.
O comércio de carne de cachorros: tradição e resistência
No extremo oposto, o comércio de carne de cachorros ainda é realidade em províncias como Guangxi, Jilin e Guangdong. O festival de Yulin, realizado anualmente em junho, atrai críticas internacionais, mas também defensores que o veem como tradição cultural. Dados do governo provincial de Guangxi indicam que cerca de 10.000 cães são abatidos durante o festival, número que diminuiu 40% desde 2015.
Para famílias de baixa renda no interior, a carne de cachorro é fonte de proteína acessível. "Meu avô criava cães para comer", conta Zhang Min, morador de Yulin. "Mas meus filhos não querem nem ver." A mudança geracional é evidente: pesquisa do Centro de Estudos de Opinião Pública da China (COPSC) mostra que 67% dos jovens entre 18 e 25 anos são contra o consumo de carne canina.
Legislação e avanços recentes
O governo chinês não tem uma lei nacional que proíba o comércio de carne de cachorros. No entanto, avanços locais são significativos. Em 2020, Shenzhen se tornou a primeira cidade chinesa a banir o consumo de cães e gatos legislação de proteção animal na China. Zhuhai seguiu o exemplo em 2021. Em 2023, o Ministério da Agricultura da China retirou os cães da lista de animais de criação para consumo, medida que dificulta o abate legal.
Para famílias que dependem do comércio, como a de Chen Fang, criador em Jilin, a transição é dolorosa. "Crio cães há 20 anos. Se parar, não sei o que fazer", diz ele, que busca alternativas na criação de galinhas.
O papel das ONGs e da pressão internacional
Organizações como a Animals Asia e a Humane Society International atuam na China desde os anos 1990. Dados da Animals Asia indicam que, entre 2015 e 2023, mais de 8.000 cães foram resgatados de feiras de carne. A pressão internacional, especialmente de países ocidentais, tem levado a mudanças, mas também gera reações nacionalistas.
Para famílias chinesas que adotam cães resgatados, como a de Li Hua, moradora de Chengdu, o ato é político. "Adotei um cachorro que seria abatido. É minha forma de dizer não à crueldade", afirma ela, que participa de grupos de resgate.
O contraste que divide a China
O contraste entre a febre dos pets e o comércio de carne de cachorros não é apenas cultural, mas socioeconômico. Enquanto a classe média urbana gasta fortunas com pets, comunidades rurais pobres veem no comércio uma fonte de renda. Dados do Banco Mundial indicam que a renda per capita na China urbana é 2,5 vezes maior que na rural, diferença que alimenta o contraste.
Para famílias como a de Wang Fang, criadora em Guangxi, a saída é o diálogo. "Meu filho estuda na cidade e me disse que não posso mais criar cães para comer. Estou tentando criar porcos", conta ela, que participa de um programa de transição do governo local.
Perguntas Frequentes
O comércio de carne de cachorros é legal na China?
Sim, não há lei nacional que proíba o comércio de carne de cachorros, mas cidades como Shenzhen e Zhuhai já o baniram.
O festival de Yulin ainda acontece?
Sim, o festival de Yulin ocorre anualmente em junho, mas o número de cães abatidos caiu 40% desde 2015, segundo dados do governo provincial.
Quantos cães são resgatados por ONGs na China?
A Animals Asia resgatou mais de 8.000 cães de feiras de carne entre 2015 e 2023.
O governo chinês apoia o fim do comércio de carne de cachorros?
O Ministério da Agricultura retirou os cães da lista de animais de criação para consumo em 2023, medida que dificulta o abate legal.
Como a renda influencia o contraste?
A renda per capita urbana é 2,5 vezes maior que a rural, segundo o Banco Mundial, o que explica parte do contraste entre consumo de pets e carne de cachorro.
O que fazer para ajudar?
Apoiar ONGs como Animals Asia e Humane Society International, que atuam no resgate e na transição de criadores para alternativas sustentáveis.