A que ponto chegamos: STF, Lava Jato e a crise de confiança
A instituição que deveria ser o maior exemplo de moralidade e transparência do país está em frangalhos. E não é por causa de apenas um ministro. O editorial 'A que ponto chegamos!', do portal Sete Dias, abre com essa constatação dura, direta, que resume o mal-estar institucional brasileiro.
Quem vive no interior de Minas, como eu, sabe como a confiança na justiça é construída devagar, em cada acordo de terra, em cada escritura reconhecida em cartório. Quando uma corte suprema anula provas, investigações e condenações de uma operação que durou anos, não é só um processo que cai. Cai a certeza de que o direito vale para todos.
O texto lembra que, em maio deste ano, o ministro Dias Toffoli anulou provas, investigações e condenações da Operação Lava Jato. E faz um alerta: a sociedade brasileira, com memória curta, quase não se lembra disso. Eu arriscaria dizer que a maioria dos leitores desta coluna, se parar para pensar, vai ter dificuldade para reconstruir o fio da meada. Não por desinteresse, mas porque a enxurrada de notícias apaga o que deveria ficar gravado.
O que está em jogo não é um nome, um partido, uma operação específica. É a previsibilidade das regras. Quando uma decisão individual desfaz o trabalho de anos de investigação, o produtor que planta, o comerciante que investe, o jovem que estuda para concurso público, todos eles recebem o mesmo recado: a lei pode mudar de direção no meio do caminho.
Não é papel deste espaço julgar se a decisão foi certa ou errada. O editorial apenas constata o estado das coisas. E o estado das coisas, para quem está no chão, é de que a instituição que deveria ser o farol de moralidade perdeu o brilho.
Fica a pergunta que o título já antecipa: a que ponto chegamos? A resposta, talvez, esteja na forma como cada um de nós, na próxima eleição, na próxima decisão do dia a dia, vai tratar a justiça. Se a memória curta vencer de novo, o interior também perde. Porque a seca que atinge a credibilidade das instituições não tem previsão de chuva.
crise institucional no Brasil
O que a comunidade espera, e isso vale do Norte de Minas ao Triângulo, é que os próximos capítulos dessa história tragam mais clareza do que névoa. Que as decisões sejam explicadas, que os prazos sejam cumpridos, que a transparência volte a ser regra. Até porque, como diz o ditado mineiro, a justiça tarda, mas não falha. O problema é quando ela falha de outra forma: na confiança que a sociedade deposita nela.