# O dilema da Arábia Saudita para se manter fora da guerra entre EUA e Irã

> A Arábia Saudita enfrenta um dilema estratégico na guerra entre EUA e Irã. O país busca manter neutralidade desde fevereiro, mas sofreu ataques de três frentes. A retaliação conjunta com os EUA contra milícias pró-Irã no Iraque representa um risco de escalada. O dilema saudita envolve equilibrar a defesa territorial com a necessidade de evitar envolvimento direto no conflito.

*Portal Notícias MG · Cidade · 30 de julho de 2026 · Marília Stefani*

Desde que EUA e Israel iniciaram a guerra contra o Irã em fevereiro, a Arábia Saudita tenta se manter neutra. Após sofrer ataques de três frentes, o país realizou retaliações conjuntas com os EUA contra milícias apoiadas pelo Irã no Iraque. O dilema saudita: continuar revidando o

A Arábia Saudita enfrenta um dilema estratégico desde que os Estados Unidos e Israel iniciaram a guerra contra o Irã, em 28 de fevereiro deste ano. O reino tem procurado se manter fora do conflito, mas após sofrer ataques vindos de três frentes, a paciência se esgotou.

Nesta semana, o país realizou, em conjunto com os EUA, ataques contra milícias apoiadas pelo Irã no Iraque que, segundo os sauditas, vêm lançando drones contra o reino. O dilema agora é decidir se continuará revidando para impedir novos ataques ou se buscará reduzir as tensões, talvez fazendo pagamentos a alguns de seus adversários.

## O dilema estratégico saudita no conflito entre EUA e Irã

De modo geral, há dois lados no conflito que atinge o Golfo e outras regiões do Oriente Médio há cinco meses. De um lado estão o Irã, especialmente o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, e seus aliados, como os houthis no Iêmen, grupo tribal que assumiu o controle de grande parte do país em 2014.

O Irã também apoia as Forças de Mobilização Popular (PMF) no Iraque, grupo paramilitar que teria realizado 30 ataques com drones contra a Arábia Saudita e que agora foi alvo de retaliação. Há ainda o Hezbollah, grupo político e militar xiita que opera no Líbano, que continua sendo uma força relevante, mas atualmente mantém um perfil discreto.

Do lado oposto estão os EUA, com as forças de seu Comando Central (Centcom), além dos países árabes do Golfo e da Jordânia, envolvidos em diferentes graus. Israel continua sendo um aliado próximo dos EUA, mas atualmente não participa ativamente da guerra.

## Por que a Arábia Saudita tenta evitar a guerra

Há vários motivos para a Arábia Saudita tentar evitar ser arrastada para uma guerra em larga escala. O governante de fato do país, o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, MBS, como é popularmente conhecido, lançou uma estratégia conhecida como Visão 2030.

O objetivo é reduzir a dependência do reino das receitas do petróleo e desenvolver setores nacionais modernos e dinâmicos, capazes de oferecer empregos com boas perspectivas às centenas de milhares de jovens que concluem a escola ou a universidade e entram no mercado de trabalho todos os anos.

Parte da Visão 2030 envolve atrair investimentos estrangeiros. O plano também prevê a construção de estruturas como centros de dados, vulneráveis a ataques. Isso não funcionará se a Arábia Saudita permanecer sob a ameaça constante de drones lançados pelos houthis, do outro lado de sua fronteira sul, ou de mísseis balísticos disparados diretamente pelo Irã.

### O ataque que serviu de alerta

Em setembro de 2019, os sauditas sofreram um forte abalo. Em meio às tensões com o Irã, a Arábia Saudita descobriu que uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã havia lançado uma série de drones contra duas de suas instalações petrolíferas mais importantes, em Abqaiq e Khurais.

Na época, levantou-se a hipótese de que o ataque tivesse partido dos houthis. Mas uma visita ao local logo depois mostrou que os danos nas estruturas estavam todos voltados para o norte. O ataque interrompeu metade das exportações sauditas de petróleo durante vários dias e serviu de alerta sobre a vulnerabilidade de sua infraestrutura crítica.

Na segunda-feira (27/7), imagens de satélite mostraram que a instalação petrolífera de Abqaiq havia sido novamente atingida por drones lançados por milícias iraquianas apoiadas pelo Irã.

## O impacto econômico e a rota do petróleo

Há ainda a interrupção do escoamento do petróleo, que continua sendo a principal fonte de sustentação da economia saudita. O Irã retaliou aos ataques dos EUA e de Israel em fevereiro ao praticamente fechar o estreito de Ormuz, rota marítima estratégica entre o país e o Golfo por onde transitavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.

Em resposta, os sauditas transportaram o máximo possível de petróleo, cerca de 5 milhões de barris por dia, pelo oleoduto que atravessa o país de leste a oeste até o terminal de exportação de Yanbu, na costa oposta, banhada pelo mar Vermelho. De lá, o petróleo era carregado em navios-tanque, que seguiam para o sul, entravam no mar da Arábia e partiam rumo aos mercados asiáticos.

Mas, em 13 de julho, os sauditas bombardearam o aeroporto de Sanaá, nos arredores da capital do Iêmen, controlado por forças rebeldes houthis. O governo iemenita apoiado pela Arábia Saudita assumiu a autoria do ataque e afirmou que pretendia impedir o pouso de um avião iraniano. Em retaliação, os houthis atacaram os aeroportos sauditas de Abha e Jizan.

Mais preocupante para a Arábia Saudita é o fato de os houthis terem começado a atacar navios sauditas no mar Vermelho, tornando extremamente perigosa a passagem pelo estreito de Bab el-Mandab, outra via marítima crucial para a economia global, no extremo sul do mar Vermelho. Isso interrompe as exportações sauditas de petróleo para a Ásia.

## O fracasso da guerra no Iêmen

A Arábia Saudita passou sete anos tentando obrigar os houthis a se render por meio de bombardeios, mas fracassou. A guerra que devastou o Iêmen foi um dos piores desastres humanitários de nosso tempo, e seus efeitos ainda são sentidos.

Em 2022, a Arábia Saudita concordou com uma trégua instável com os houthis, e houve relatos de pagamentos. Mas agora o país mais rico da região volta a enfrentar a ameaça de ataques com drones e mísseis vindos do vizinho ao sul, ao mesmo tempo que sofre ataques do Iraque, ao norte.

Nada disso estava previsto nos planos da Visão 2030.

## Perguntas Frequentes

### Como a Arábia Saudita tenta se manter neutra no conflito?

O reino busca equilibrar retaliações pontuais com esforços para reduzir tensões, evitando uma guerra em larga escala que comprometa sua estratégia econômica.

### Quais são os aliados do Irã na região?

O Irã conta com o Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, os houthis no Iêmen, as Forças de Mobilização Popular no Iraque e o Hezbollah no Líbano.

### O que é a Visão 2030 da Arábia Saudita?

É uma estratégia liderada pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman para reduzir a dependência do petróleo e atrair investimentos estrangeiros em setores modernos.

### Por que o estreito de Ormuz é importante?

Por ele transitavam 20% do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo, e seu fechamento pelo Irã afeta diretamente a economia global.

### O que aconteceu em Abqaiq e Khurais em 2019?

Uma milícia iraquiana apoiada pelo Irã lançou drones contra essas instalações petrolíferas, interrompendo metade das exportações sauditas por vários dias.

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