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Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, mostra estudo de duas décadas

ResumoEstudo de duas décadas sobre demência revela que a América Latina registra aumento nos casos, enquanto países ricos apresentam queda. Fatores como desigualdade social, acesso limitado à saúde e baixa escolaridade explicam o contraste regional. A análise criteriosa dos dados aponta necessidade de políticas públicas focadas em prevenção e cuidado na região.

Enquanto países ricos registram queda nos casos de demência, a América Latina vê um aumento preocupante, segundo estudo de duas décadas. Fatores como desigualdade, acesso à saúde e educação explicam o contraste. Análise criteriosa dos dados e contexto social.

Marília Stefani
Marília Stefani Repórter de Segurança Pública · 16 de julho de 2026 · 4 min de leitura
Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, mostra estudo de duas décadas

Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, mostra estudo de duas décadas

Um estudo longitudinal de vinte anos revela um contraste alarmante: enquanto as taxas de demência diminuem em nações de alta renda, a América Latina registra um aumento consistente. A pesquisa, que acompanhou coortes em diferentes continentes, atribui a divergência a fatores socioeconômicos e de saúde pública, não a diferenças biológicas. A análise dos dados exige cautela para não gerar pânico, mas aponta caminhos para políticas públicas.

A demência, síndrome caracterizada pelo declínio cognitivo progressivo, atinge cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo, conduzido por pesquisadores da University College London e publicado na revista The Lancet Public Health, analisou dados de 1995 a 2019 em 15 países. Na América Latina, a prevalência aumentou em média 12% a cada década, enquanto nos países ricos houve queda de 13% no mesmo período.

O contraste entre regiões

Queda nos países ricos

Nos países de alta renda, como Reino Unido, Estados Unidos e França, a redução nos casos de demência reflete décadas de investimento em saúde pública. O estudo destaca que o controle de fatores de risco cardiovascular, hipertensão, diabetes, obesidade, e o aumento da escolaridade contribuíram para a queda. "A educação formal na juventude está associada a uma reserva cognitiva maior na velhice", afirma o autor principal, Dr. Albert Hofman.

Avanço na América Latina

Na América Latina, a realidade é oposta. A prevalência de demência cresce impulsionada por baixa escolaridade média, alta incidência de doenças crônicas não tratadas e desigualdade no acesso a serviços de saúde. O estudo aponta que, em países como Brasil e México, a taxa de demência entre idosos com mais de 65 anos é de 12% a 15%, contra 6% a 8% nos países ricos. A falta de políticas de prevenção e diagnóstico precoce agrava o cenário.

Fatores sociais e econômicos

A desigualdade econômica é um dos principais motores do avanço da demência na região. Um estudo do Banco Mundial de 2023 mostra que o coeficiente de Gini médio da América Latina é de 0,49, contra 0,32 da Europa Ocidental. A pobreza na infância, associada a menor escolaridade e pior nutrição, reduz a reserva cognitiva. "O cérebro que não é estimulado nos primeiros anos de vida tem menos capacidade de compensar danos futuros", explica a neurocientista Dra. Claudia Suemoto, da USP.

A transição demográfica rápida também pesa. A América Latina envelhece mais rápido do que os países ricos envelheceram no passado. O IBGE projeta que, em 2030, o Brasil terá 38 milhões de idosos, contra 14 milhões em 2000. Esse envelhecimento acelerado, combinado com sistemas de saúde frágeis, cria um cenário propício para o aumento de doenças neurodegenerativas.

Políticas públicas em debate

A pesquisa sugere que a reversão da tendência na América Latina é possível com investimento em três áreas: educação, controle de fatores de risco e diagnóstico precoce. O Ministério da Saúde brasileiro lançou em 2023 a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, que inclui a capacitação de médicos da atenção básica para rastreio de demência política nacional de saúde da pessoa idosa. No entanto, especialistas criticam a falta de metas claras e financiamento específico.

No Chile, um programa de estimulação cognitiva para idosos em centros de saúde pública mostrou redução de 30% no declínio cognitivo em dois anos, segundo dados do Ministério da Saúde chileno. Iniciativas semelhantes podem ser adaptadas para o contexto brasileiro, mas exigem vontade política e recursos.

O papel da prevenção

Cerca de 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados com intervenções em fatores de risco modificáveis, de acordo com a Comissão The Lancet de 2020. Entre eles estão: baixa escolaridade, hipertensão, obesidade, diabetes, depressão, tabagismo e poluição do ar. Na América Latina, a prevalência de hipertensão não controlada entre idosos chega a 60%, contra 30% nos países ricos.

A prevenção, portanto, não é apenas médica, mas social. "Reduzir a desigualdade é a melhor política de saúde pública contra a demência", afirma o Dr. Hofman. As evidências científicas são claras, mas a implementação de políticas enfrenta barreiras políticas e econômicas.

Perguntas Frequentes

A demência tem cura?

Não, a demência não tem cura, mas tratamentos podem retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida. O diagnóstico precoce é essencial.

O estudo considera todos os tipos de demência?

Sim, o estudo analisou a prevalência de demência em geral, incluindo Alzheimer, demência vascular e outras formas. A maioria dos casos é de Alzheimer.

Como a escolaridade afeta o risco de demência?

A educação formal na juventude aumenta a reserva cognitiva, permitindo que o cérebro compense danos neurológicos. Pessoas com mais anos de estudo têm menor risco de desenvolver demência.

O Brasil tem políticas específicas para demência?

O Brasil possui a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, que prevê ações de prevenção e cuidado, mas falta financiamento e implementação efetiva. Organizações como a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) oferecem suporte.

A demência é evitável?

Cerca de 40% dos casos podem ser prevenidos ou adiados com controle de fatores de risco como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e baixa escolaridade.

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