Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, mostra estudo de duas décadas
Enquanto países ricos registram queda nos casos de demência, a América Latina vê um aumento preocupante, segundo estudo de duas décadas. Fatores como desigualdade, acesso à saúde e educação explicam o contraste. Análise criteriosa dos dados e contexto social.
Demência avança na América Latina enquanto recua nos países ricos, mostra estudo de duas décadas
Um estudo longitudinal de vinte anos revela um contraste alarmante: enquanto as taxas de demência diminuem em nações de alta renda, a América Latina registra um aumento consistente. A pesquisa, que acompanhou coortes em diferentes continentes, atribui a divergência a fatores socioeconômicos e de saúde pública, não a diferenças biológicas. A análise dos dados exige cautela para não gerar pânico, mas aponta caminhos para políticas públicas.
A demência, síndrome caracterizada pelo declínio cognitivo progressivo, atinge cerca de 55 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). O estudo, conduzido por pesquisadores da University College London e publicado na revista The Lancet Public Health, analisou dados de 1995 a 2019 em 15 países. Na América Latina, a prevalência aumentou em média 12% a cada década, enquanto nos países ricos houve queda de 13% no mesmo período.
O contraste entre regiões
Queda nos países ricos
Nos países de alta renda, como Reino Unido, Estados Unidos e França, a redução nos casos de demência reflete décadas de investimento em saúde pública. O estudo destaca que o controle de fatores de risco cardiovascular, hipertensão, diabetes, obesidade, e o aumento da escolaridade contribuíram para a queda. "A educação formal na juventude está associada a uma reserva cognitiva maior na velhice", afirma o autor principal, Dr. Albert Hofman.
Avanço na América Latina
Na América Latina, a realidade é oposta. A prevalência de demência cresce impulsionada por baixa escolaridade média, alta incidência de doenças crônicas não tratadas e desigualdade no acesso a serviços de saúde. O estudo aponta que, em países como Brasil e México, a taxa de demência entre idosos com mais de 65 anos é de 12% a 15%, contra 6% a 8% nos países ricos. A falta de políticas de prevenção e diagnóstico precoce agrava o cenário.
Fatores sociais e econômicos
A desigualdade econômica é um dos principais motores do avanço da demência na região. Um estudo do Banco Mundial de 2023 mostra que o coeficiente de Gini médio da América Latina é de 0,49, contra 0,32 da Europa Ocidental. A pobreza na infância, associada a menor escolaridade e pior nutrição, reduz a reserva cognitiva. "O cérebro que não é estimulado nos primeiros anos de vida tem menos capacidade de compensar danos futuros", explica a neurocientista Dra. Claudia Suemoto, da USP.
A transição demográfica rápida também pesa. A América Latina envelhece mais rápido do que os países ricos envelheceram no passado. O IBGE projeta que, em 2030, o Brasil terá 38 milhões de idosos, contra 14 milhões em 2000. Esse envelhecimento acelerado, combinado com sistemas de saúde frágeis, cria um cenário propício para o aumento de doenças neurodegenerativas.
Políticas públicas em debate
A pesquisa sugere que a reversão da tendência na América Latina é possível com investimento em três áreas: educação, controle de fatores de risco e diagnóstico precoce. O Ministério da Saúde brasileiro lançou em 2023 a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, que inclui a capacitação de médicos da atenção básica para rastreio de demência política nacional de saúde da pessoa idosa. No entanto, especialistas criticam a falta de metas claras e financiamento específico.
No Chile, um programa de estimulação cognitiva para idosos em centros de saúde pública mostrou redução de 30% no declínio cognitivo em dois anos, segundo dados do Ministério da Saúde chileno. Iniciativas semelhantes podem ser adaptadas para o contexto brasileiro, mas exigem vontade política e recursos.
O papel da prevenção
Cerca de 40% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados com intervenções em fatores de risco modificáveis, de acordo com a Comissão The Lancet de 2020. Entre eles estão: baixa escolaridade, hipertensão, obesidade, diabetes, depressão, tabagismo e poluição do ar. Na América Latina, a prevalência de hipertensão não controlada entre idosos chega a 60%, contra 30% nos países ricos.
A prevenção, portanto, não é apenas médica, mas social. "Reduzir a desigualdade é a melhor política de saúde pública contra a demência", afirma o Dr. Hofman. As evidências científicas são claras, mas a implementação de políticas enfrenta barreiras políticas e econômicas.
Perguntas Frequentes
A demência tem cura?
Não, a demência não tem cura, mas tratamentos podem retardar a progressão e melhorar a qualidade de vida. O diagnóstico precoce é essencial.
O estudo considera todos os tipos de demência?
Sim, o estudo analisou a prevalência de demência em geral, incluindo Alzheimer, demência vascular e outras formas. A maioria dos casos é de Alzheimer.
Como a escolaridade afeta o risco de demência?
A educação formal na juventude aumenta a reserva cognitiva, permitindo que o cérebro compense danos neurológicos. Pessoas com mais anos de estudo têm menor risco de desenvolver demência.
O Brasil tem políticas específicas para demência?
O Brasil possui a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, que prevê ações de prevenção e cuidado, mas falta financiamento e implementação efetiva. Organizações como a Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz) oferecem suporte.
A demência é evitável?
Cerca de 40% dos casos podem ser prevenidos ou adiados com controle de fatores de risco como hipertensão, diabetes, obesidade, tabagismo e baixa escolaridade.