Choque entre política fiscal e juros gera bola de neve na dívida
A combinação de política fiscal expansionista com juros elevados pressiona a dívida pública brasileira, que já custa R$ 1,16 trilhão ao ano. Especialistas alertam para risco de 'fadiga fiscal' e projeção de dívida acima de 100% do PIB.
Choque entre política fiscal e juros gera bola de neve na dívida pública
A combinação de uma política fiscal expansionista com o esforço do Banco Central em frear a economia é o que pressiona o patamar da dívida pública brasileira. Economistas ouvidos pelo CNN Money apontam que a continuidade dos gastos públicos força a manutenção da política monetária em nível contracionista, criando um ciclo que encarece o custo da dívida e ameaça a sustentabilidade fiscal do país.
O que é o choque entre política fiscal e juros?
O choque ocorre quando o governo adota medidas de expansão de gastos enquanto o Banco Central eleva a taxa básica de juros para conter a inflação. Luiz Fernando Figueiredo, ex-diretor do BC e presidente do conselho de administração da Jive Mauá, resume: "Nós praticamos uma política fiscal que vai sempre na contramão do Banco Central. Para a inflação acalmar, ele precisa reduzir um pouco a atividade, moderar um pouco o crescimento. Mas, do outro lado, o governo acelera muito, expande muito o gasto".
Esse descompasso entre as duas políticas faz com que os juros permaneçam elevados por mais tempo, aumentando o custo de rolagem da dívida pública.
Dados recentes: custo da dívida atinge R$ 1,16 trilhão
No acumulado em doze meses até junho, o custo com os juros alcançou R$ 1,16 trilhão, o equivalente a 8,8% do PIB. No mesmo período de 2025, esse valor era de R$ 912,3 bilhões, ou 7,41% do PIB. O crescimento nominal é expressivo e reflete tanto o aumento da taxa básica quanto o volume maior de dívida em circulação.
A taxa Selic está em 14,25% ao ano. Com incertezas no horizonte, a expectativa dos economistas, segundo a pesquisa Focus, é de que a taxa permaneça em dois dígitos até 2028, caindo em ritmo lento.
O que dizem os especialistas
Carlos Kawall, sócio proprietário na Oriz Partners e ex-secretário do Tesouro Nacional, avalia que o nível atual da taxa de juros "não é explosivo" como em outros momentos de crise. Porém, ele pondera: "o patamar da dívida é muito mais alto".
"O tempo com que a gente pode conviver com esse juro real elevadíssimo não é tão dilatado. A velocidade de crescimento da dívida e das taxas de juros vem sufocando o setor privado, contratando uma recessão, uma crise, que quando acontecer vai piorar o problema fiscal, porque a arrecadação cai", afirma Kawall.
Para ele, "não tem como sobreviver por tanto tempo com esse nível de juro real e a dívida pública crescendo".
Dívida Bruta do Governo Geral: 81,9% do PIB
A Dívida Bruta do Governo Geral, que inclui governo federal, INSS, estados e municípios, avançou para 81,9% do PIB em junho, alcançando R$ 10,4 trilhões. Se a rota atual for mantida, a cifra deve ultrapassar 100% do PIB entre 2032 e 2035, segundo estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados.
Fadiga fiscal: o limite da política de ajuste
O cenário descrito pelos especialistas é de "fadiga fiscal": a perda da capacidade de estabilizar o crescimento da dívida com a geração de superávits primários, quando o caixa do governo fecha positivo. Isso ocorre porque existem limites tanto para o aumento da tributação quanto para o corte de gastos de despesas correntes.
Paulo Bijos, consultor autor do levantamento, explica: "O Brasil, ao que parece, já opera em uma região de resistência para novos aumentos de carga tributária, e o gasto público tenderá a ser constantemente pressionado, nos anos futuros, em decorrência da transição demográfica em curso no país".
O que esperar da política monetária
Com a Selic em 14,25% ao ano e a perspectiva de queda lenta, o custo da dívida deve continuar alto no curto prazo. A pesquisa Focus indica que a taxa permanecerá em dois dígitos até 2028, o que mantém a pressão sobre o orçamento público e sobre o setor privado.
Impactos para a economia e o cidadão
O cenário de juros elevados e dívida crescente tem efeitos diretos: o setor privado sofre com o crédito mais caro, o investimento tende a recuar e a arrecadação do governo pode cair se a atividade econômica desacelerar. Isso cria um ciclo vicioso, no qual a piora fiscal leva a mais juros e mais dívida.
Perguntas Frequentes
O que é o choque entre política fiscal e juros?
É o conflito entre a expansão dos gastos públicos e a política monetária contracionista do Banco Central. O governo gasta mais, o que pressiona a inflação, e o BC eleva os juros para conter a alta de preços, aumentando o custo da dívida.
Quanto o Brasil gasta com juros da dívida?
No acumulado em doze meses até junho, o custo com juros alcançou R$ 1,16 trilhão, equivalente a 8,8% do PIB.
Qual é o patamar atual da dívida pública?
A Dívida Bruta do Governo Geral está em 81,9% do PIB, o que representa R$ 10,4 trilhões.
Quando a dívida pode ultrapassar 100% do PIB?
Segundo estudo da Consultoria de Orçamento da Câmara dos Deputados, a dívida deve ultrapassar 100% do PIB entre 2032 e 2035, se a rota atual for mantida.
O que é fadiga fiscal?
É a perda da capacidade de estabilizar o crescimento da dívida por meio de superávits primários, devido a limites para aumento de impostos e corte de gastos correntes.
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