# A Câmera Arrancada: como Barreto deixou o jornalismo

> Luiz Carlos Barreto abandonou o jornalismo em 1964 após ter a câmera arrancada por um oficial durante um protesto na Cinelândia, no Rio de Janeiro. Barreto testemunhou um disparo contra um jovem, foi preso e, em seguida, migrou definitivamente para o cinema, onde consolidou carreira como produtor.

*Portal Notícias MG · Cidade · 03 de agosto de 2026 · Sérgio Tadeu Mafra*

Em 1964, Luiz Carlos Barreto viu um oficial atirar em um rapaz na Cinelândia. Sua câmera foi arrancada, ele foi preso e, pouco depois, deixou o jornalismo para se dedicar ao cinema.

## A Câmera Arrancada: o dia em que Luiz Carlos Barreto deixou o jornalismo

Durante quase 15 anos, Luiz Carlos Barreto percorreu o Brasil e o mundo com uma câmera pendurada ao pescoço. Esteve onde a história acontecia. Registrou guerras, tragédias, crises políticas, chefes de Estado, artistas, atletas, trabalhadores, sertanejos e personagens anônimos, sempre com a mesma convicção: grandes histórias nascem do encontro entre o olhar atento e a realidade.

Sua trajetória no jornalismo, porém, não terminou em uma redação. O desfecho veio nas ruas do Rio de Janeiro, em 1964, quando uma cena mudou tudo.

## O que foi a câmera arrancada de Luiz Carlos Barreto

Em 1964, durante a cobertura dos acontecimentos políticos na Cinelândia, Barreto presenciou uma cena que jamais esqueceria. "Vi um oficial atirar na cabeça de um rapaz. Fotografei a cena." Segundos depois, instalou-se a confusão. Policiais e militares avançaram contra quem registrava os acontecimentos. Sua câmera foi arrancada. Barreto acabou preso e, mais tarde, libertado.

Pela primeira vez, o instrumento que durante anos lhe permitira testemunhar a história transformava-se no alvo daqueles que não queriam vê-la documentada.

## Como a agressão na Cinelândia mudou sua carreira

O rompimento definitivo ocorreria pouco tempo depois, durante a visita oficial do presidente francês Charles de Gaulle ao Brasil. Barreto fotografava De Gaulle ao lado do presidente Castelo Branco. A diferença de altura entre os dois criava uma composição curiosa, quase irônica. Em busca de um enquadramento melhor, ultrapassou discretamente a linha de segurança.

Não conseguiu fazer outra fotografia. Quatro soldados o agarraram e o lançaram violentamente sobre um canteiro da Cinelândia.

Foi naquele instante, entre a câmera caída e o chão, que percebeu que o jornalismo que aprendera nas ruas já não podia mais ser exercido da mesma forma. "Não dá mais para fazer jornalismo neste país."

Recolheu os filmes, enviou-os para a redação de "O Cruzeiro" e nunca mais voltou.

## O que aconteceu depois da câmera arrancada

Não houve carta de despedida, reunião ou pedido formal de demissão. Tampouco foi dispensado. Barreto costumava contar, com certo humor, que permaneceu durante muito tempo registrado em sua carteira profissional como repórter da revista. Sua saída aconteceu exatamente como vivera o jornalismo: sem solenidades, no meio da rua, depois de uma prisão, uma agressão e uma câmera arrancada das mãos.

O destino, entretanto, já apontava em outra direção.

Nos anos seguintes, Luiz Carlos Barreto ajudaria a construir uma das trajetórias mais importantes do cinema brasileiro. Atravessou o Cinema Novo, enfrentou a ditadura militar, sobreviveu às crises do setor, ao fim da Embrafilme e participou da retomada da produção nacional. Vieram novos filmes, novos parceiros e novos desafios.

O olhar formado na redação de "O Cruzeiro", aperfeiçoado em milhares de quilômetros percorridos atrás da notícia e guiado pela certeza de que o Brasil podia ser compreendido a partir de sua gente.

Barreto deixou o jornalismo, mas nunca abandonou o fotojornalista que existia dentro dele. Levou para o cinema a mesma sensibilidade que aprendera nas ruas: observar antes de explicar, enxergar antes de interpretar e confiar que uma imagem, quando nasce da verdade, atravessa o tempo.

## A carreira de repórter antes da câmera arrancada

Antes do episódio na Cinelândia, Barreto construiu uma carreira marcada pela versatilidade. Estreou na redação de reportagens com "Nasceu o Filho do Tenente Bandeira", sobre o famoso Crime do Citroën Negro, uma cobertura policial que já demonstrava seu interesse por acontecimentos de grande repercussão nacional.

O ano revela a versatilidade do repórter. Barreto produz reportagens sobre turismo ("A Melhor das Ana Maria", nas praias do Ceará), concursos de beleza ("Miss Uruguai - 1953"), esportes ("Sururu no Maracanã"), política ("Lição de Democracia") e cultura, encerrando o ano com coberturas realizadas em Paris.

Como correspondente na Europa, consolida sua atuação internacional. Destacam-se "Cannes", sobre o Festival de Cinema, a cobertura da Copa do Mundo da Suíça, o Festival de Veneza, além de reportagens sobre o existencialismo parisiense, Carmen Miranda, Gina Lollobrigida e a vida cultural francesa e italiana.

Barreto alterna política, religião, indústria e cultura. Entre os destaques estão "Pio XII", realizada no Vaticano, "Operação Maxwell", acompanhando um cruzeiro de celebridades pela Europa, além de reportagens sobre Assis Chateaubriand, Volkswagen, Amália Rodrigues e o futebol argentino.

O foco internacional permanece forte. Barreto cobre o casamento de Grace Kelly e Rainier de Mônaco, visita Portugal e Lourdes, registra Santos Dumont, Dorival Caymmi e o atleta Adhemar Ferreira da Silva, combinando comportamento, cultura e esporte.

O olhar humano ganha força. O fotógrafo registra o pintor Pancetti, o tapeceiro Genaro de Carvalho, o compositor Capiba e produz uma de suas reportagens mais marcantes, "Quatorze Horas Sem Ver Mamãe", sobre o sequestro do menino Sérgio Haziot.

Barreto divide-se entre grandes acontecimentos esportivos e temas sociais. Destacam-se a cobertura da conquista brasileira na Copa do Mundo da Suécia, Maria Esther Bueno, Roberto Rossellini, a morte de Pancetti e reportagens políticas.

O futebol passa a ocupar espaço crescente em sua produção, com reportagens sobre Pelé, Didi, Heleno de Freitas e o Sul-Americano. Paralelamente, publica trabalhos sobre o Rio São Francisco, Marlene Dietrich, Marilyn Monroe e Nikita Kruschev.

Um dos anos mais importantes de sua carreira. Barreto assina "Orós", considerada uma de suas grandes reportagens, acompanha a inauguração de Brasília, cobre a Conferência de Cúpula, a construção da estrada Acre-Brasília, as Olimpíadas de Roma e produz a reportagem "Côte d'Azur".

A aproximação com o cinema torna-se evidente. Publica "Barravento Traz Luíza", sobre as filmagens do primeiro longa de Glauber Rocha, volta ao Açude Orós e dedica reportagens a Pelé, Garrincha, Genaro de Carvalho, Iúri Gagarin e à renúncia de Jânio Quadros.

O futebol domina sua produção. Barreto acompanha a preparação da Seleção Brasileira, a Copa do Mundo do Chile, produz reportagens sobre Garrincha, Pelé, Vicente Feola e registra também Berlim dividida pelo Muro e a morte de Marilyn Monroe.

O ano é marcado por duas grandes frentes: o aprofundamento da cobertura sobre Garrincha, em "O Que Foi Mesmo o Caso Garrincha", e o protagonismo do Santos de Pelé, além da visita oficial do marechal Tito ao Brasil.

## O legado de Luiz Carlos Barreto para o fotojornalismo

Naquele dia, na Cinelândia, arrancaram-lhe a câmera. O olhar, porém, ninguém foi capaz de tomar. Barreto provou que a violência pode interromper uma carreira, mas não apaga a sensibilidade de quem aprendeu a enxergar o Brasil pelas lentes da realidade.

Para quem vive do jornalismo ou do cinema, a história de Barreto funciona como um lembrete: a verdade documentada resiste ao tempo, mesmo quando tentam silenciá-la no momento em que é registrada.

## Perguntas Frequentes

### Quem foi Luiz Carlos Barreto?

Luiz Carlos Barreto foi um fotógrafo e repórter brasileiro que se tornou uma das figuras mais importantes do cinema nacional. Antes disso, construiu carreira em "O Cruzeiro", cobrindo eventos no Brasil e no mundo.

### O que aconteceu com a câmera de Barreto na Cinelândia?

Em 1964, durante a cobertura de acontecimentos políticos, a câmera de Barreto foi arrancada por policiais e militares. Ele foi preso e, pouco depois, libertado. O episódio marcou sua saída do jornalismo.

### Por que Barreto deixou o jornalismo?

Após ser agredido e ter a câmera arrancada, Barreto percebeu que não podia mais exercer o jornalismo da mesma forma. Ele enviou os filmes para a redação de "O Cruzeiro" e nunca mais voltou.

### O que Barreto fez depois de sair do jornalismo?

Barreto dedicou-se ao cinema, atravessou o Cinema Novo, enfrentou a ditadura militar e participou da retomada da produção nacional. Levou para o cinema o olhar de repórter que aprendeu nas ruas.

### Qual foi a reportagem mais marcante de Barreto?

Entre as mais marcantes está "Quatorze Horas Sem Ver Mamãe", sobre o sequestro do menino Sérgio Haziot, além de "Orós", considerada uma de suas grandes reportagens.

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