# Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como Cuba e Venezuela

> A Nicarágua de Daniel Ortega não recebe o mesmo tratamento dos EUA que Cuba e Venezuela devido a diferenças estratégicas. O país carece de recursos naturais significativos, não possui uma oposição unificada forte e representa risco de ondas migratórias para Washington. Esses fatores tornam a pressão máxima sobre Manágua menos prioritária para a política externa americana.

*Portal Notícias MG · Cidade · 23 de julho de 2026 · Cláudia Resende*

Após a captura do ditador da Venezuela e o aumento da pressão sobre Cuba, muitos se perguntam por que a Nicarágua não é o próximo alvo. Analistas apontam diferenças estratégicas: falta de recursos naturais, ausência de oposição unificada e risco de ondas migratórias levam Washing

## Análise: Por que os EUA não tratam a Nicarágua como tratam Cuba e Venezuela

Após os EUA capturarem o ditador da Venezuela em janeiro e aumentarem a pressão econômica sobre Cuba nos meses seguintes, muitos se perguntaram se o próximo alvo da Casa Branca seria a Nicarágua, outro país latino-americano com um líder autocrático, que nesta semana descartou a possibilidade de novas eleições. No entanto, Washington pouco fez para sinalizar que tomará medidas iminentes na Nicarágua, enquanto os copresidentes do país - Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo - têm mantido um perfil discreto e evitado provocar o governo Trump.

Os EUA não tratam a Nicarágua como Cuba e Venezuela devido a diferenças estratégicas: a Nicarágua não possui recursos naturais significativos, é governada por uma família sem sucessor claro, e Washington evita ações que possam gerar ondas migratórias ou repressão. A abordagem é de pressão gradual, por meio de sanções, sem intervenção direta ou proposta de mudança de regime.

## Diferenças fundamentais entre Nicarágua, Cuba e Venezuela

O Professor Kai Thaler, do Departamento de Estudos Globais da Universidade da Califórnia, Santa Bárbara, apontou que "para Marco Rubio, Cuba importa muito mais do que a Nicarágua. Além disso, a Nicarágua não possui os recursos naturais da Venezuela".

Ele afirmou que outra diferença fundamental é que a Nicarágua é governada por uma família e não tem um sucessor claro como Delcy Rodríguez, da Venezuela, que assumiu a liderança do país após a captura do ditador Nicolás Maduro pelos EUA. "Todas as alternativas de liderança foram eliminadas por Ortega e Murillo", afirmou.

## Abordagem cautelosa de Washington

Com a Nicarágua, os Estados Unidos têm uma abordagem diferente da aplicada a Caracas e Havana, de acordo com o cientista político nicaraguense Manuel Orozco, diretor do Programa de Migração, Remessas e Desenvolvimento do Diálogo Interamericano, com sede nos EUA. O analista afirmou que a Casa Branca quer evitar ações que possam levar a ondas migratórias ou repressão e, em vez disso, aposta em mudanças graduais sem intervenção direta.

"Uma interpretação é que a inércia política na ditadura de Murillo e Ortega irá gerar conflitos internos, uma desaceleração econômica, um possível protesto social onde (os EUA) podem exercer pressão. Mas não o contrário. Se intervir neste momento, não se sabe qual seria o efeito sobre uma transição política", disse Orozco.

## Gestos de aproximação e sanções

Dias após a operação dos EUA na Venezuela, a Nicarágua anunciou medidas que foram interpretadas como gestos em direção a Washington. Libertou dezenas de prisioneiros depois que os EUA exigiram sua soltura e, posteriormente, restabeleceu a exigência de visto para cubanos, que limitava sua imigração para a América do Norte.

Em abril, os EUA impuseram novas sanções a autoridades nicaraguenses, desta vez, visando dois dos filhos de Ortega e Murillo. Além disso, o Secretário de Estado americano, Marco Rubio, elevou o tom em relação a Manágua e condenou recentemente a declaração de Ortega de cancelar as eleições, mas até agora não chegou a propor uma mudança de regime, como fez explicitamente com Cuba.

## O papel de Rosario Murillo e a sucessão

Ambos os analistas afirmaram que Murillo, que recebeu o título de copresidente em fevereiro de 2025, já está no comando. Essa também parece ser a posição do Departamento de Estado, que passou a citar o nome de Murillo antes do de Ortega em seus comunicados, um possível reconhecimento de sua crescente influência política.

"Historicamente, havia a percepção de que uma transição para Rosario provocaria rachaduras na Frente Sandinista. Isso ainda é possível, mas a Frente de hoje é muito diferente da de uma década atrás. Não se trata apenas de um partido personalista; isso também se deve a Rosario, que trabalhou para garantir que as pessoas em cargos de poder lhe sejam leais, e não apenas a Daniel", disse Thaler, afirmando que o casal presidencial mantém um controle rígido sobre as forças de segurança e os mecanismos de controle social.

## Perspectivas futuras

Orozco afirmou que os Estados Unidos "têm desenvolvido uma série de pressões" por meio de sanções, às quais a Nicarágua raramente responde, em um padrão quase constante. Com essa ressalva, ele disse que os Estados Unidos podem estar pensando a longo prazo, de olho nas eleições gerais que estão teoricamente marcadas para novembro de 2027 (caso Ortega não cumpra a ameaça de cancelá-las).

"Eles estão planejando sincronizar a pressão para que algum tipo de reforma seja implementada", disse Orozco. "As sanções visam encurralar o regime. É provável que eles não percam a oportunidade de a Nicarágua passar por uma transformação democrática."

Enquanto isso, Thaler ressaltou que os EUA atualmente não estão dando muita atenção à Nicarágua e não espera que isso mude. "Há sanções contra autoridades do regime, mas é algo que acontece a cada três ou seis meses. Não é um sinal de atenção maior do que o habitual. É difícil imaginar uma mudança significativa na política dos EUA em relação à Nicarágua; atualmente, o país está em guerra com o Irã. Há uma campanha de pressão contra Cuba que não trouxe muitos resultados. Sem novos acontecimentos, não vejo uma grande mudança", disse ele.

## O cenário da oposição e a continuidade do regime

O analista concluiu que eleições e democracia na Nicarágua estão "longe de serem possíveis neste momento" - especialmente sem uma oposição unificada. "Ela é muito fragmentada. Há pessoas como (o ativista e acadêmico) Félix Madariaga, que são muito proeminentes e continuam seus esforços para manter a causa nicaraguense presente no discurso dos EUA e do mundo, mas não há unidade, não há uma causa comum além do fim da ditadura", disse.

Embora parte da oposição espere uma possível divisão interna no governo, os analistas concordam que tal cenário é improvável. "Não parece haver alternativas dentro do regime ou grandes possibilidades de qualquer ruptura. Existe a possibilidade de outra sucessão familiar por um dos filhos, como Laureano, mas não há generais ou vice-presidentes" que possam surgir como uma possibilidade, disse Thaler.

"O cenário mais plausível é a continuidade do regime, com Rosario Murillo em uma posição mais forte do que nunca. Daniel (80 anos) está cada vez menos presente na vida pública. Rosario (74) é muito mais ativa na gestão do dia a dia. Há um papel maior na política para Laureano e para os filhos, mas, até agora, não há indícios de qualquer possibilidade de transição", reafirmou ele.

## Perguntas Frequentes

### Por que os EUA não impõem sanções mais duras à Nicarágua?

Os EUA adotam uma abordagem gradual para evitar ondas migratórias e repressão, apostando em mudanças sem intervenção direta, segundo o analista Manuel Orozco.

### Qual a diferença entre a situação da Nicarágua e a da Venezuela?

A Nicarágua não possui os recursos naturais da Venezuela e é governada por uma família sem sucessor claro, diferentemente de Caracas, que tem Delcy Rodríguez como liderança após a captura de Maduro.

### Rosario Murillo é a verdadeira líder da Nicarágua?

Analistas afirmam que Murillo, copresidente desde fevereiro de 2025, já está no comando, com o Departamento de Estado citando seu nome antes do de Ortega em comunicados.

### Há possibilidade de eleições na Nicarágua?

Ortega descartou novas eleições, e analistas consideram que eleições e democracia estão "longe de serem possíveis neste momento", especialmente sem uma oposição unificada.

### O que os EUA podem fazer em relação à Nicarágua no futuro?

Os EUA podem sincronizar pressões para as eleições teoricamente marcadas para novembro de 2027, mas analistas não preveem mudanças significativas na política americana sem novos acontecimentos.

---

Fonte (canonical): https://portalnoticiasmg.com.br/cidade/analise-por-eua-nao-tratam-nicaragua-como-tratam-cuba-venezuela/
