Análise: Centrão foca em emendas e orçamento nas eleições
Pela primeira vez em 20 anos, o MDB adotou neutralidade na disputa presidencial, movimento seguido por União Brasil, Podemos e Republicanos. A estratégia reflete o poder crescente do Congresso sobre o orçamento federal, via emendas parlamentares, tornando a Presidência menos atra
Análise: Centrão se concentra em domínio de emendas e orçamento
Pela primeira vez em 20 anos, o MDB decidiu adotar a neutralidade na disputa presidencial, não apoiando nenhum candidato à Presidência no primeiro turno. O movimento não é isolado: a Federação União Progressista e os partidos Podemos e Republicanos caminham na mesma direção, evidenciando uma mudança estratégica nas principais siglas do Centrão para as eleições deste ano.
O Centrão está concentrando sua estratégia no domínio de emendas e orçamento, com partidos como MDB, União Brasil, Podemos e Republicanos adotando neutralidade na disputa presidencial. O objetivo é eleger o máximo de senadores, deputados e governadores, mantendo portas abertas para negociar com o vencedor, já que o controle do orçamento via emendas tornou o mandato parlamentar mais vantajoso que pastas ministeriais.
Por que o Centrão prefere neutralidade na corrida presidencial?
Na prática, essas legendas liberam os diretórios estaduais para construírem alianças de acordo com as realidades locais. Em alguns estados, ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva (PT); em outros, ao lado de Flávio Bolsonaro (PL).
Sem se amarrar a um candidato ao Planalto, o objetivo é eleger o máximo de senadores, deputados federais e governadores, mantendo as portas abertas para negociar com quem quer que seja o vencedor da disputa presidencial.
O poder das emendas parlamentares e o orçamento federal
Com o avanço das emendas parlamentares e o controle crescente do Legislativo sobre o orçamento federal, muitas lideranças partidárias já não enxergam a Presidência como o único caminho para acumular poder.
O diretor de Jornalismo da CNN em Brasília, Daniel Rittner, destacou um episódio emblemático ocorrido em abril de 2025: o líder do União Brasil na Câmara, Pedro Lucas (União Brasil-MA), foi convidado para ocupar o Ministério das Comunicações, mas recusou a oferta, preferindo permanecer à frente da bancada.
"Cada deputado tem R$ 50 milhões para aplicar por ano, cada senador tem R$ 80 milhões para aplicar por ano", explicou Rittner. Segundo ele, esse dinheiro não depende do chefe do partido, do presidente da República nem do ministro da Casa Civil, tornando o mandato parlamentar mais vantajoso do que uma pasta ministerial.
O Congresso como centro do poder político
O analista de Política da CNN Caio Junqueira reforçou essa leitura ao afirmar que o poder hoje está concentrado no Congresso Nacional, que controla o orçamento por meio das emendas parlamentares e detém completo poder de agenda.
"O Congresso hoje tem muito poder, é quase um regime semipresidencialista, um parlamentarismo branco", avaliou. Para ele, diante de uma eleição considerada imprevisível, os grandes partidos do Centrão, como Republicanos, União Brasil e PP, preferem não se atrelar a uma candidatura presidencial e correr o risco de apostar no candidato derrotado.
O impacto da cláusula de barreira e das coligações
A cientista política e professora da FGV-EESP (Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) Lara Mesquita apontou que a proibição das coligações nas eleições proporcionais também reduziu os incentivos para esses partidos formarem alianças nacionais.
Segundo ela, quando um partido firmava uma coligação nacional para presidente, parte da negociação envolvia apoio às chapas estaduais onde o partido era menor. Além disso, a legislação atual proíbe a transferência de recursos entre partidos que não estejam formalmente coligados ou federados.
"Eu fecho a coligação nacional também olhando para os interesses estaduais, seja para os governos estaduais, seja para os deputados federais e senadores", explicou Lara.
Outro fator relevante apontado por Lara é a cláusula de barreira, cuja exigência cresce progressivamente até 2030. O partido que se fortalecer agora envia um sinal às elites políticas de que será viável no próximo ciclo eleitoral, atraindo aliados e ampliando sua capacidade de negociação com o governo eleito.
Daniel Rittner também mencionou o impacto da cláusula sobre partidos menores, citando como exemplo o esforço do Novo para manter visibilidade por meio de uma candidatura presidencial.
As dificuldades dos candidatos e o cenário eleitoral
O cenário também evidencia as dificuldades dos dois principais candidatos ao Planalto. Lula reuniu praticamente toda a esquerda ao redor de sua candidatura, mas não avançou sobre as grandes siglas do Centrão em âmbito nacional. Flávio Bolsonaro (PL) chegou à convenção do PL sem o apoio formal dos principais partidos do Centro e sem vice definido.
O PSD, que bancou a candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) sem encontrar alternativas, optou por uma chapa puro sangue com o nome de Gilberto Kassab (PSD), apostando no eleitor de centro-direita que rejeita tanto Lula quanto Bolsonaro. Romeu Zema (Novo) também segue sem vice, com a direção do partido admitindo que uma chapa pura permanece no radar.
O receio de investigações e a leitura política
Caio Junqueira acrescentou ainda um componente adicional: o receio de partidos em se aliarem à candidatura de Flávio Bolsonaro por temor de investigações da Polícia Federal ou de pressões do Supremo Tribunal Federal.
"Tem uma leitura ali no Centrão de que, se o PP ou o União Brasil fechar coligação com o Flávio, vem a Polícia Federal, vem algum tipo de pressão nesse sentido", afirmou. Para ele, trata-se de uma questão que mistura aspectos policiais e políticos, tornando-se um fator relevante nesta eleição.
O equilíbrio de poder entre Executivo e Legislativo
A cientista política Lara Mesquita discordou da tese de que o Congresso teria mais poder do que o presidente, mas reconheceu que partidos de centro tendem, em democracias multipartidárias, a aderir ao governo de plantão como forma de puxar a agenda para o centro.
"Como está tudo muito polarizado, é melhor ficar no meio, estadualmente, sem se comprometer com ninguém", disse, parafraseando a lógica atribuída a Baleia Rossi (MDB).
A especialista também ponderou que não há evidências de que o partido que integra a coligação eleitoral necessariamente estará em posição melhor do que aquele que ficou de fora, pois o tamanho da bancada conquistada nas urnas é o que, em última instância, define o poder de negociação com o governo eleito.
Perguntas Frequentes
Por que o Centrão está adotando neutralidade na eleição presidencial?
Para manter portas abertas com qualquer vencedor, focando em eleger o máximo de parlamentares e governadores, já que o controle do orçamento via emendas tornou o Legislativo mais poderoso.
Quanto cada deputado e senador controla em emendas?
Segundo Daniel Rittner, cada deputado tem R$ 50 milhões para aplicar por ano, e cada senador, R$ 80 milhões, valores que não dependem do presidente ou de ministros.
Qual o impacto da cláusula de barreira na estratégia do Centrão?
A cláusula, que cresce até 2030, incentiva partidos a se fortalecerem agora para enviar sinal de viabilidade política, atraindo aliados e ampliando poder de negociação.
Como a proibição das coligações afetou as alianças?
A proibição reduziu incentivos para alianças nacionais, já que antes a coligação presidencial incluía apoio a chapas estaduais, o que não é mais permitido.
O Congresso tem mais poder que o presidente?
Para Caio Junqueira, sim, com o controle do orçamento e da agenda. Lara Mesquita discorda, mas reconhece que partidos de centro tendem a aderir ao governo de plantão.