Análise: Guerra no Irã chega a impasse de alto custo
Seis meses após forças dos EUA e de Israel atacarem o Irã, matando seu líder supremo e ferindo seu filho e sucessor, a guerra chegou a um impasse de alto custo. O governo iraniano segue sob cerco econômico, mas ainda detém o poder e aposta que o tempo joga a seu favor. A ameaça do presidente dos EUA, Donald Trump, de impor novas sanções paralisantes enfrenta um problema: Teerã acredita que ele não dará o passo decisivo para romper o impasse, aplicando de forma agressiva sanções secundárias contra países como China e Índia.
As medidas mais recentes de Washington, anunciadas na última segunda-feira (24), marcam nova fase no conflito iniciado em 28 de fevereiro. O campo de batalha deixou de ser mísseis e ataques aéreos para se deslocar às receitas do petróleo, aos bancos e aos parceiros comerciais do Irã. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou que os EUA cortarão as linhas vitais financeiras que sustentam a economia iraniana, enquanto um bloqueio naval liderado pelos EUA restringe as exportações de Teerã e seu acesso a moedas fortes.
"A administração (Trump) está tateando de forma quase desesperada para tentar encontrar uma saída para isso", disse Aaron David Miller, ex-diplomata dos EUA e pesquisador sênior do Carnegie Endowment. Ao anunciar as sanções, Bessent fez analogia com o Dia D, o desembarque na França em 1944. Miller rebateu: "Para mim, isso não é o Dia D. É o Dia do Desespero. Não acredito que a administração esteja mais perto de encontrar uma saída para essa situação."
Michael Knights, chefe de pesquisa da Horizon Engage, consultoria sediada em Nova York, afirmou que o bloqueio pode ser mais impactante que as próprias sanções, pois o desafio imediato do Irã já não é apenas sobreviver à pressão econômica, mas romper com ela. Teerã passou décadas se adaptando a sanções e resistiu a campanhas anteriores de "pressão máxima" sem alterar seu comportamento. A crescente pressão, segundo Knights, pode aumentar o incentivo do Irã para elevar o custo do confronto, pressionando os Estados do Golfo, especialmente a Arábia Saudita, a levar Washington a buscar saída diplomática.
O pesquisador afirmou que o Irã poderia adotar o modelo dos Houthis no Mar Vermelho: ataques periódicos, negociações intermitentes e campanha prolongada de perturbação, sem chegar a guerra total, visando transporte marítimo, portos, infraestrutura energética ou outros ativos críticos. Washington rejeita essa avaliação. "A economia iraniana está em queda livre e as forças armadas do regime foram dizimadas", disse o porta-voz do Departamento de Estado dos EUA, Tommy Pigott. "O presidente Trump detém todas as cartas, e estamos cortando todas as tábuas de salvação financeira que restam ao regime."
Alan Eyre, ex-diplomata dos EUA que trabalhou com questões relacionadas ao Irã, questionou se Washington tem apoio internacional e maquinaria burocrática para garantir a eficácia das sanções. Ele observou que, ao contrário da campanha multilateral que antecedeu o acordo nuclear de 2015, as medidas mais recentes baseiam-se em ameaças públicas, em vez de diplomacia sustentada com aliados. Autoridades iranianas descartam a estratégia, classificando-a como repetição de uma cartilha que já fracassou. Uma autoridade iraniana de alto escalão disse à Reuters que países como a China não deixariam de cooperar com o Irã para atender aos interesses dos EUA.
Alguns analistas apontam falha mais profunda: da Coreia do Norte à Rússia e ao próprio Irã, sanções raramente forçaram governos a abandonar objetivos que consideram existenciais. A autoridade iraniana afirmou que Teerã acredita que o objetivo mais amplo de Washington é alimentar descontentamento interno, na esperança de que dificuldades econômicas se transformem em agitação política. "Se a pressão aumentar, a abordagem do Irã também mudará", disse ele, acrescentando que os governos árabes do Golfo compreendiam que pressionar Teerã poderia colocá-los em maior risco.
Para os governantes do Irã, a maior ameaça pode não ser o sofrimento econômico, mas o risco de agitação popular em massa. A inflação anual atingiu 66% em julho, enquanto os preços ao consumidor estavam 87,9% mais altos que um ano antes, segundo o Centro de Estatísticas do Irã. Os preços dos alimentos subiram 128% em relação ao ano anterior. O presidente Masoud Pezeshkian reconheceu a gravidade: "Nossos problemas se multiplicaram várias vezes, enquanto nossa renda também caiu."
Insatisfações econômicas têm desencadeado protestos nos últimos anos. Em janeiro, manifestações foram reprimidas pela Guarda Revolucionária e pela milícia Basij, resultando em milhares de mortes. A nomeação, neste mês, de Hossein Taeb, um dos principais arquitetos de repressões anteriores, para liderar o Basij foi um dos sinais mais claros da preocupação oficial com nova onda de agitação, disse uma ex-autoridade reformista.
Isso aponta para um paradoxo: sanções podem agravar os danos econômicos sem forçar mudança de rumo. Historicamente, a liderança iraniana responde à agitação interna com repressão e à pressão externa com ameaças de retaliação. Para os Estados do Golfo, o cálculo é complexo. Eles preferem pressão econômica e diplomática a nova guerra, mas temem um desfecho que permita ao Irã declarar vitória e manter capacidade de interromper o tráfego no Estreito de Ormuz, rota vital para o abastecimento global de petróleo que Teerã já bloqueou efetivamente, elevando os preços globais.
Abdulaziz Sager, presidente do Gulf Research Center, afirmou que os governos do Golfo não estão convencidos de que sanções sozinhas possam alterar rapidamente o comportamento do Irã, dada a resiliência da liderança e sua capacidade de manter controle interno. Mudanças políticas significativas, ou colapso da liderança teocrática, dificilmente ocorrerão rapidamente. O resultado é um impasse perigoso, caso as negociações mediadas não levem a avanço significativo. Washington quer que o Irã abra mão de sua influência sobre Ormuz sem conceder papel na gestão da via navegável; o Irã quer o fim do bloqueio naval sem parecer que se rendeu; os Estados do Golfo querem conter o conflito sem permitir que o Irã saia vitorioso.