Abertura e fechamento de Ormuz talvez seja o novo normal, diz professor
Em entrevista, o professor Fernando Brancoli afirma que a alternância entre abertura e fechamento do Estreito de Ormuz pode se tornar o novo normal, com impactos diretos na economia global e no Brasil.
Abertura e fechamento de Ormuz talvez seja o novo normal, diz professor
A nova ameaça de Donald Trump à Montanha Pickaxe, no Irã, aprofunda a escalada de tensões entre Estados Unidos e o país do Golfo Pérsico. Em entrevista ao Hora H desta terça-feira (21), o professor de Relações Internacionais Fernando Brancoli analisou o cenário geopolítico e seus desdobramentos econômicos.
Segundo Brancoli, relatórios da ONU e de empresas de seguros estavam calcados na premissa de que o conflito iria acabar e que haveria um acordo entre as partes. Pela primeira vez, analistas enxergam a situação de outra forma: o Estreito de Ormuz pode abrir e fechar dependendo do mês e da entrada de atores como os Houthis.
Neste "novo normal", dificilmente o Irã se reaproximará dos Estados Unidos e do Ocidente. "Estamos falando de uma nova fase", observou o especialista.
Impacto nos países do Golfo e em Dubai
O novo cenário impacta países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar, que historicamente apostaram na estabilidade regional para atrair investimentos. Dubai, consolidada como hub comercial e financeiro seguro, vem sofrendo com o fluxo de pessoas deixando a cidade diante dos ataques iranianos aos Emirados Árabes Unidos.
"Todo mundo fazia conexão em Dubai para visitar Ásia ou África. Agora há uma reflexão sobre até que ponto Dubai pode ser um hub comercial ou de tráfego", disse Brancoli.
Reflexos na economia mundial e no Brasil
A escalada das tensões terá reflexos diretos na economia mundial. O aumento dos custos logísticos, com elevação dos preços de seguro de navios e do petróleo, deve pressionar a inflação em diversos países, incluindo o Brasil.
"Quando aumenta o preço do petróleo, a gente tem impacto na nossa inflação também. Quando a gente pensa em aumento do preço de fertilizantes, isso vai impactar o agro no contexto brasileiro", explicou.
Acordo nuclear e risco de proliferação
Brancoli comentou sobre o acordo nuclear entre Estados Unidos e Arábia Saudita. Inicialmente prevendo apenas transferência de tecnologia para enriquecimento de urânio para fins médicos, passou a contemplar possibilidades de enriquecimento em níveis maiores. Embora não se fale em armas nucleares, imprensa e membros da realeza saudita passaram a defender o armamento. "Do ponto de vista prático, seria um desastre", avaliou.
Política interna dos EUA e o conflito
O especialista destacou que Trump vem sofrendo derrotas no Congresso e nas pesquisas, em parte devido ao aumento dos preços nos EUA, com o diesel registrando alta superior a 20%. Diante da perspectiva de perder o controle do Congresso e do Senado nas eleições de meio de mandato, Trump passou a questionar a integridade do processo eleitoral.
"Não à toa ele vem acusando sistematicamente o processo de eleição ao longo dessas últimas semanas, a ideia de que a eleição não seria limpa, já prevendo uma derrota", afirmou.
Perguntas Frequentes
O que é o Estreito de Ormuz?
É uma passagem estratégica no Golfo Pérsico por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, sendo vital para o comércio global.
Como a instabilidade em Ormuz afeta o Brasil?
O aumento do preço do petróleo e de fertilizantes pressiona a inflação e impacta o agronegócio brasileiro.
O que é o acordo nuclear entre EUA e Arábia Saudita?
É um acordo que prevê transferência de tecnologia nuclear para fins médicos, mas que passou a incluir possibilidades de enriquecimento em níveis maiores.
Por que Trump questiona as eleições nos EUA?
Segundo Brancoli, Trump prevê uma derrota nas eleições de meio de mandato devido a derrotas no Congresso e à alta de preços.
Quem são os Houthis?
São um grupo rebelde do Iêmen que atua no conflito regional, com ataques a navios no Mar Vermelho e no Golfo de Áden.